terça-feira, 28 de junho de 2016

QUILOMBOS EM JUNDIAÍ

Em dissertação de mestrado apresentada à UFRJ, Deborah da Costa Fontenelle discute o tema "quilombos", e recorrendo ao jornal Correio de Campinas, narra fatos ocorridos em Itupeva, à época parte de Jundiaí. Na medida do possível, conservamos as expressões da época constantes do texto:

"Há um quilombo do escravos fugidos na fazenda denominada S. Simão, no districto de Jundiahy, distante umas 2 ½ léguas da estação de Itupeva, da qual é administrador o Sr. Francisco Bueno. 

O ataque a um quilombo
Aos 29 do passado (junho de 1885) o Sr. Bueno ajuntou uma força de 15 paisanos e assaltou o  quilombo, resultando d’este assalto a morte de um dos paisanos e a retirada dos mais, que deixaram o cadáver de seu companheiro nas mãos dos aquilombados. 

O Sr. Bueno communicou o occorrido ao delegado de policia de Jundiahy, por telegramma e pediu uma força para desalojar os aquilombados. O delegado respondeu-lhe immediatamente que não tinha a força precisa disponível e que não remettesse o cadáver para Jundiahy com as testemunhas do facto, e telegraphou ao chefe de policia, pedindo um destacamento para servir no caso. 

Este veiu no dia 30 do passado em numero de 15 praças, commandadas por um tenente, e desembarcou em Jundiahy. No mesmo dia o delegado fez marchar o destacamento para a scena do distúrbio. 

Chegado o destacamento ao sitio, o commandante fez o reconhecimento da situação das cousas, e communicou ao delegado que os escravos estavam entricheirados na matta e que não podia subjugal-os sem empregar os meios mais enérgicos. 

O delegado respondeu que fizesse uso das armas, mas o commandante, vendo que havia grande desproporção entre o numero das praças e dos fugidos, e que estes tinham uma immensa vantagem do terreno, julgou mais prudente não atacar o quilombo sem um reforço de praças, e voltou para Jundiahy, com o destacamento, hoje (2 de julho) de tarde. 

Diz o delegado que elle espera a chegada de um reforço sufficiente, de S. Paulo, amanhã, e fará seguir a força, assim augmentada, de novo á scena do distúrbio. 

A gente da visinhança do quilombo assevera que há 43 dos fugidos, e que o cadáver do infeliz paizano, que morreu no conflicto de 29 do passado, está lá a pequena distancia do quilombo, espetado n’um mastro para a admoestação dos temerários. "

Capitão do Mato - gravura de Rugendas
Em Itupeva há um bairro chamado Quilombo, provavelmente uma referência a esses fatos, a respeito dos quais infelizmente não conseguimos mais informações.

Também não conseguimos mais informações acerca de um episódio ainda mais tétrico que teria acontecido em nossa cidade no ano de 1754, quando os governantes da cidade teriam contratado um capitão do mato (caçador de escravos fugidos)  para eliminar um quilombo, matando os líderes e espetando suas cabeças em estacas fincados junto à estrada, para que servissem de exemplo a outros possíveis fugitivos.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

REMANDO CONTRA O PROGRESSO: JUNDIAÍ NÃO PRECISAVA DE EMISSORA DE RÁDIO...

Muita gente é contra novas tecnologias, por razões diversas: medo de perder poder/status, de não se adaptar a novas situações, sensação de conforto com a situação atual e outras, dentre as quais aparecem com frequência razões de ordem econômico/financeira. 

Um caso típico ligado a esse motivo é relatado pelo jornal Folha da Manhã em sua edição de 21/08/1935, posicionando-se radicalmente contra a instalação de uma emissora de rádio em nossa cidade.

As justificativas apresentadas eram estapafúrdias, como interferências nas transmissões das  emissoras de São Paulo (eram sete), do Rio de Janeiro e até mesmo da Argentina!

O autor do texto diz ainda que a programação, com artistas locais jamais poderia competir com a das grandes emissoras - convenientemente, esqueceu-se dos discos...

O artigo diz ainda que os empresários da cidade não anunciariam aqui, preferindo faze-lo nas emissoras da capital, em função do maior alcance - "esquece-se" também do custos muito maiores envolvidos.

Termina o texto  dizendo que situação similar viviam os jornais locais, que não podiam competir com os de São Paulo, e que nossa cidade deveria se conformar com as adversidades geradas pelo fato de estarmos próximos a São Paulo.

Isso é que era "imprensa marrom"! Para os mais jovens, "imprensa marrom" é aquela que não segue princípios éticos - no caso, a publicação de texto evidentemente gerado em função de interesses comerciais. 

Mas parece que funcionou, ao menos durante algum tempo: a primeira emissora instalada em Jundiaí foi a Difusora, que entrou no ar apenas em junho de 1946


domingo, 19 de junho de 2016

O VISCONDE DE TAUNAY DANÇOU EM NOSSA CIDADE



Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay (1843-1899), o Visconde de Taunay, destacou-se como intelectual, político e militar; dá nome a uma rua de nossa cidade, no bairro de Vila Arens. 

Autor de obras marcantes, como Inocência e A Retirada da Laguna - foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira n.° 13, que tem como patrono Francisco Otaviano. 

Na política, foi deputado por Goiás e Santa Catarina, senador por essa província e presidente (como eram chamados os governadores) do Paraná, sendo um dos responsáveis pela criação do o Passeio Público, famoso parque de Curitiba.

Como militar, atingiu o posto de major e participou da Guerra do Paraguai, registrando em livro um trágico e heroico episódio de nossa historia, a retirada da Laguna. O livro, escrito originalmente em francês, foi publicado em 1871 e teve enorme repercussão.

Em suas obras, Taunay relata alguns episódios relativos à guerra, acontecidos em nossa cidade.

Taunay fazia parte de uma expedição comandada pelo coronel Manoel Pedro Drago, que em 1865 deixou o Rio de Janeiro rumo a Santos, pelo navio "Santa Maria". De trem, os seis oficiais que compunham a Comissão de Engenheiros da coluna, foram até Cubatão, onde tomaram uma diligência para chegar a São Paulo.

De S. Paulo, partiram para Jundiaí, na "frigidíssima" madrugada de 11 de abril daquele ano. Taunay montava a mula "Dona Branca", que havia comprado por 240 mil réis. 

Ao chegarem a Jundiaí, hospedaram-se na estalagem do Barão da Ponte (de que já falamos em outro post) - nas palavras de Taunay, o tal Barão era um português gaiato, que dizia "os outros barões são feitos pelo Imperador - eu, pela unânime aclamação dos povos"! Era o Barão de estatura mediana, corpulento, de face redonda e rosada. 

A estalagem ficava na região da ponte que cruzava o Rio Jundiaí (provavelmente na área da atual Vila Lacerda), logo após cruzar-se o rio. 

Era uma grande e frequentada hospedaria, um edifício em forma de quartel onde o viajante encontrava boas acomodações, camas limpas e comida regular. Seu dono era conhecido pela sua bonomia e gentileza. 

Taunay segue dizendo que o Barão tinha duas filhas, que cuidavam da estalagem: a Nha Cula (Clotilde), “feia e magra” e a Nha Bé (Isabel), “gorduchona, alourada e mais apetitosa”. Taunay segue narrando: "na hospedaria havia um velho piano, muito desafinado. Pois o comandante me fez tocá-lo e assim improvisei alguns trechos de óperas e das primeiras obras de Verdi". 

Logo depois chegou à estalagem a "música de Jundiaí", uma "péssima charanga" onde dominavam o trombone, o prato e o bumbo e armou-se um baile, onde os oficiais "apertaram deveras as duas beldades" - eram as únicas mulheres presentes... O Barão dizia "divirtam-se, mas respeitem as meninas"...

Já estavam no local outros militares, entre os quais "um major velho, de peruca", comandante do 21º Batalhão, que pediu para "recitar um improviso". Foi para o centro da sala, com um lenço na mão e disse ao mestre da charanga: "quando eu der sinal com o lenço, toquem o Hino Nacional" - e recitou:

"Se aqui estamos reunidos,

Em solene ocasião,

É p'ra vingarmos valentes,

Pedro e a Constituição."


Deu sinal com o lenço e a charanga atacou o Hino; ao final dos primeiros compassos, o Major pediu silêncio e recitou mais algumas quadrinhas, todas péssimas. Segundo Taunay, a cena era irresistivelmente cômica. 

O então Tenente Taunay era muito jovem à época. Com seus 22 anos, músico e compositor, deve ter se divertido muito na festa...


Acampamento durante a marcha

A expedição marchou mais de dois mil quilômetros, até chegar a Miranda, no Mato Grosso do Sul, em setembro de 1866. Comandada então pelo coronel Carlos de Morais Camisão, invadiu o território paraguaio, chegando à Fazenda Laguna, que era de propriedade de Solano Lopez, em abril de 1867.

Acossados pelos paraguaios, pelas doenças e pela fome, os brasileiros se retiram 
Reduzida à metade dos 3.000 homens originais, muito distante das linhas brasileiras, sem víveres, remédios, armas e equipamentos adequados e muito afetada por doenças como cólera, tifo, e beribéri, a coluna do foi forçada a retirar-se fustigada pelos constantes ataques da cavalaria paraguaia, que utilizava táticas de guerrilha, infligindo perdas severas aos brasileiros.

Conseguiram chegar às linhas brasileiras em Coxim, em junho de 1868, apenas 700 homens, alquebrados pela doença e pela fome - o Coronel Camisão morreu pelo caminho, vítima do cólera.

Teve um papel muito importante no episódio José Francisco Lopes, o Guia Lopes, um fazendeiro da região que atuou como guia das tropas - sem o seu conhecimento da região, as baixas teriam sido ainda maiores. Também morreu de cólera quase ao final da retirada.

Finda a retirada, a guerra seguiu para Taunay. A foto abaixo mostra-o em companhia de funcionários e oficiais brasileiros, já ao final da guerra: aparecem o Conde D'Eu, com a mão na cintura e à sua esquerda, o futuro Visconde do Rio Branco (pai do Barão) e que chegou a chefiar o gabinete do Imperador (era como um primeiro ministro) entre 1871 e 1875; Taunay está entre eles, na segunda fila.









quarta-feira, 15 de junho de 2016

MOLECAGEM: QUASE TRAGÉDIA

Uma brincadeira de estudantes quase gerou uma tragédia no dia 28 de abril de 1954. 

Um mecânico estacionou um ônibus na Rua Jorge Zolner, próximo à sua residência, no centro da cidade, para ir almoçar.  

Um grupo de estudantes entrou no ônibus e provavelmente soltou o freio de mão: o ônibus começou a se movimentar, desceu a Jorge Zolner e cruzou a Rua Leonardo Cavalcanti, indo em direção à Rangel Pestana. 

No caminho, atropelou e feriu dois menores que estavam na calçada e invadiu a cozinha de uma casa, onde estavam a proprietária, que se feriu levemente, e quatro crianças, que escaparam ilesas.

Uma "quase tragédia" que foi noticiada pelo jornal Folha da Noite - note-se no recorte do jornal que o número da casa atingida é dado como 769, o que pode indicar um erro do jornal ou o fato de ter sido alterada a numeração; na atualidade, esse número está próximo à Rua Eduardo Tomanik, no sentido contrário ao que desceu o ônibus. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

UM CASO DE AMOR EM 1928

A Folha da Manhã de 12 de setembro de 1928 contava a história de um barbeiro, residente em Santos, que morara em nossa cidade onde teve uma namorada. 

O "fígaro" como o jornal se referia ao barbeiro, mudara-se para Santos e um dia voltou a Jundiaí para "matar as saudades" - segundo o jornal, "foi só, mas voltou acompanhado", trazendo a namorada que fugiu de casa.

Apesar de ser uma ocorrência comum, como era praxe na época o assunto foi levado à Polícia, que deteve os dois.

Mas parece que o caso terminou bem, pois voltaram juntos para nossa cidade...

sábado, 28 de maio de 2016

1935: GUIOMAR NOVAES, A MAIOR PIANISTA BRASILEIRA, VISITA JUNDIAÍ

Guiomar em 1939: "a mais famosa pianista do mundo"
Guiomar Novaes (1894-1979) foi, sem dúvida, a maior pianista brasileira. Nascida em São João da Boa Vista era a 17ª de 19 irmãos. 
Desde os seis anos de idade passou ater aulas de piano, mostrando extraordinária habilidade. Foi vizinha de Monteiro Lobato, a quem inspirou para criar a personagem Narizinho, a "menina do nariz arrebitado" do Sítio do Picapau Amarelo.
Mais tarde teve aulas com Luigi Chiaffarelli, um importante professor italiano, considerado o responsável pelo seu desenvolvimento artístico. Chiaffarelli também foi professor de inúmeros pianistas que alcançaram fama no país e no exterior- hoje dá nome a uma rua nos Jardins, em S. Paulo.. 
Em 1902, com oito anos, Guiomar Novaes apresentou-se publicamente pela primeira vez. Em 1909, com o auxílio do Governo do Estado de São Paulo, foi estudar em Paris.
Ao desembarcar na França, Guiomar foi convidada para visitar uma compatriota que desejava ouvi-la: era a Princesa Isabel, também pianista, que vivia exilada próximo a Versalhes.   
Na capital francesa, Guiomar inscreveu-se para prestar provas no Conservatório de Paris; havia 331 candidatos para doze vagas - Guiomar foi a primeira colocada; na comissão julgadora, estavam músicos como Claude Debussy. Graduou-se dois anos depois, também em primeiro lugar.
Fez muito sucesso em todo mundo; sempre ligada à cultura, participou da Semana de Arte Moderna; casou-se com Octavio Pinto, com quem teve dois filhos.  
Tocou para personagens importantes da cena internacional, como o Presidente Roosevelt e a Rainha Elizabeth.
Mas também veio a Jundiai: em 20 de abril
Folha da Manhã, 24/4/1935
de 1935, um sábado de Aleluia, apresentou-se no Politeama, num concerto em benefício da "Casa da Creança". Ao final do concerto, recebeu uma "corbeille" de uma das crianças atendidas pela Casa; na entrada do Politeama foi colocada uma placa de bronze marcando a visita (será que ainda existe?).
O Prefeito Gandra
Guiomar foi saudada pelo prefeito, o Dr. Antenor Soares Gandra, que ofereceu a ela e aos seus familiares um "lunch" em sua residência.
Pernoitou em Jundiaí e no dia seguinte visitou a instituição e outros pontos da cidade. Surpreende o fato de que há mais de 80 anos nossa cidade recebesse uma artista desse porte. 






    domingo, 22 de maio de 2016

    A ESTRADA DE FERRO BRAGANTINA


    Campo Limpo Paulista pertencia a Jundiaí. De Campo Limpo partia a Estrada de Ferro Bragantina (EFB), que chegava até a cidade de Bragança Paulista. 

    Em fins da década de 1860, fazendeiros de Bragança lançaram a ideia de construir uma estrada de ferro que, ligando-se aos trilhos da Santos a Jundiaí, permitisse enviar rapidamente sua safra de café ao porto de Santos, substituindo as tropas de burros que eram utilizadas nesse transporte - eram semanas de viagem de Bragança até o porto de Santos.. 

    Os trabalhos de implantação da ferrovia foram iniciados em fins  de 1878  e se arrastaram por quase 6 anos, incluído aí um tempo de quase dois anos em que as obras ficaram completamente paralisadas, pois a companhia que estava construindo a ferrovia quase faliu. 

    Foram superados obstáculos imensos à época, pois não havia maquinário disponível e tudo tinha de ser feito com pás e picaretas. Finalmente, em 4 de maio de 1884 inaugurou-se o primeiro trecho, de Campo Limpo até Atibaia, e em 15 de Agosto do mesmo ano até Bragança, numa extensão de 52 km. 

    Uma das Kitson originais partindo de Atibaia nos anos 1960
    Inicialmente a ferrovia utilizou 5 locomotivas a vapor Kitson de fabricação inglesa, que   foram batizadas em homenagem a autoridades da época: Conde de Tres Rios, Dr. Luiz Leme, Dr. Lins de Vasconcellos e Barão de Jundiahy; a quinta chamou-se Bragança.  A ferrovia ainda tinha 8 carros de passageiros e 55 vagões de carga de diversos tipos, inclusive para transporte de animais. 

    Mais tarde, a EFB adquiriu duas automotrizes diesel de procedência inglesa, da marca Walker, que entraram em serviço em 01/09/1938. 


    A "Bandeirante" em Piracaia
    Elas passaram a ser denominadas, após a passagem da EFB para o governo estadual, “O Bandeirante” e “IV Centenário”. Essas máquinas faziam o transporte de passageiros na região de Atibaia e Bragança.

    A Bragantina mudou de dono várias vezes - em 1895 Luís de Oliveira Lins de Vasconcelos lidera um grupo que adquire as ações da EFB, tornando-se dono da companhia, que em 1903 foi vendida à São Paulo Railway, que era a dona da linha Santos a Jundiaí.

    Em 1946 a SPR passou para o controle do governo federal, e a Bragantina para o estadual. Apesar de alguns investimentos do governo, a  EFB continuava famosa pelos seus equipamentos obsoletos, velocidade baixa e pouca confiabilidade em termos de horários – após ser estatizada, tornou-se rapidamente um cabide de empregos.

    A situação da empresa começara a agravar-se  com a crise de 1929, que levou à extinção da cultura do café na região, deixando de haver necessidade do trem para seu transporte.
    O último trem saindo de Campo Limpo

    Nos anos 1960, o asfaltamento das rodovias que ligavam as cidades da região, a construção da rodovia Fernão Dias, que corria praticamente paralela aos seus trilhos e o fato de transportar apenas cerca de 70 toneladas de carga ao dia selaram sua sorte: em 21-06-1967, após anos de prejuízos (em 1966 mais de 1,2 milhões de cruzeiros novos), às 16:50, o último trem  partiu de Campo Limpo com destino a Bragança Paulista, tracionado pela locomotiva diesel  nº 8, que pertencera à Cia. Mogiana. 

    Foi nesse dia que se ouviu o último apito e a EFB morreu...

    terça-feira, 17 de maio de 2016

    1951: A POLÍCIA RODOVIÁRIA RECEBIA HARLEYS

    A Polícia Rodoviária, desde 1962 parte da Polícia Militar, foi criada em 1948  com o nome de Grupo Especial de Polícia Rodoviária, com um efetivo de 60 homens, quase todos antigos membros da Força Expedicionária Brasileira que lutara na Itália.

    Apesar de seu primeiro comandante ter sido o 1º Tenente José de Pina Figueiredo, da então Força Pública (hoje Polícia Militar), a PR era subordinada ao Departamento de Estradas de Rodagem (DER).

    Inicialmente atuava na recém inaugurada Via Anchieta (demorou 8 anos para ser construída), à época a mais moderna rodovia de nosso estado; logo a seguir, passou a cuidar também da Via Anhanguera e depois de outras estradas de nosso estado.

    Jundiaí sempre teve uma ligação muito forte com a Polícia Rodoviária – hoje sediamos um de seus batalhões e aqui funcionou uma escola para formação de patrulheiros. Em nossa região, foram filmados nos anos 1960 alguns episódios da série Vigilante Rodoviário.

    Por tudo isso, vale a pena lembrar uma notícia publicada em 29 de junho de 1951 pela Folha da Manhã, dando conta da entrega à PR de 15 motocicletas Harley Davidson, importadas através da Mesbla, revendedora de produtos daquela marca.

    Havia necessidade de mais motos, mas para importa-las era necessário autorização do governo federal, o que era muito difícil, em função da falta de moeda forte para compra-las – já vivíamos em crise...


    O quartel da PR em 1956 - esquina das ruas João Ferrara e Pirapora (Acervo Maurício Ferreira/Sebo Jundiaí)

    quarta-feira, 11 de maio de 2016

    UMA ESCOLA QUE ORGULHAVA JUNDIAÍ




    Houve aqui uma escola que orgulhava os jundiaienses do passado, a “Escola de Aprendizes Mecânicos na Companhia Paulista de Estradas de Ferro de Jundiahy”, mais tarde conhecida como “SENAI da Paulista”. 
    Roberto Mange
    Um dos maiores incentivadores à instalação de escolas como essa foi Roberto Mange, nome pelo qual era conhecido o suíço Robert Auguste Edmond Mange (1885-1955). Mange era formado em engenharia  pela Escola Politécnica de Zurique (1910) e chegou ao Brasil em 1913,  a convite do engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza, diretor da Escola Politécnica de São Paulo, para lecionar Engenharia Mecânica naquela escola.

    Foi superintendente da Escola Profissional de Mecânica do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo,  fundou o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT) e o  SENAI, tendo sido seu primeiro diretor, cargo que exerceu  até falecer.
    Criada em 1934 (apesar de outras fontes afirmarem que já em 1901 havia em nossa cidade uma escola de aprendizes ferroviários), a maioria de seus cursos tinha a duração de quatro anos e eram compostos por disciplinas práticas e teóricas. Inicialmente, a escola ofereceu um curso   de “Escrituração Ferroviária”, com uma etapa de formação com a duração de três anos ao qual se poderia seguir um período de aperfeiçoamento de mais dois e um curso para mecânicos, compreendendo os ofícios de mecânico-ajustador, serralheiro e montador. Posteriormente, incluiu outras especializações como torneiros, caldeireiros, fundidores, modeladores-mecânicos e eletrotécnicos.
    Os requisitos para preencher as vagas eram: ser maior de 14 anos e prestar exame de admissão em Língua Portuguesa, Geografia e História do Brasil, Aritmética e Geometria Prática - passando também por exames psicotécnicos, onde eram avaliadas aptidões naturais para a carreira.
    As oficinas - à direita, ao 
    fundo, o Politeama e a 
    igreja de Vila Arens
    O currículo apresentava principalmente matérias técnicas mas também matérias mais gerais, como por exemplo, “Noções de História da Civilização no Brasil”, Geografia Política e Comercial do Brasil”, “Educação Cívica e Moral do Aprendiz no seu Ofício Perante a Sociedade” e “Noções de Higiene do Ofício”. Era dada maior ênfase aos trabalhos práticos, sendo primordial a relação entre o ensino teórico e as atividades nas oficinas, que deveriam sempre permanecer conjugados; os alunos eram remunerados.
    A Oficina de Aprendizagem em 1941
    Nos dois primeiros anos, os alunos
    frequentavam concomitantemente as aulas teóricas e a Oficina de Aprendizagem e, nos dois últimos anos, frequentavam a Oficina Geral. Suas atividades deveriam obedecer sempre ao princípio dos trabalhos metódicos e progressivos.  Chegamos a conhecer profissionais formados pela escola que ocuparam bons cargos em empresas como a IBM.
    O jornal “Folha da Manhã”, em sua edição de 28 de novembro de 1936, noticiava a solenidade de formatura da primeira turma da escola, paraninfada pelo deputado Antenor Soares Gandra; foi oradora da turma a aluna Noemia de Felippe. Após a entrega dos diplomas, houve um baile, realizado na sede do Grêmio CP. Ainda em termos de formaturas, o jornal “O Estado de S. Paulo” noticiou que em 4 e 5 de janeiro de 1959 mais uma turma se graduara, tendo como orador o aluno Hercules Sagrillo e como paraninfo Armando Negro, instrutor chefe da escola.
    É interessante comparar o que ofereciam essas escolas há oito décadas em relação ao que temos hoje no âmbito municipal e estadual, e até mesmo em algumas escolas privadas, com muitos alunos terminando o Ensino Médio (colegial) analfabetos funcionais.

    quinta-feira, 5 de maio de 2016

    MAIO É MÊS DE ROMARIAS: FÉ, E ÀS VEZES, TRISTEZA

    É muito tradicional em nossa cidade a Romaria Diocesana Masculina, que acontece nos mês de maio, desde 1914, tendo começado com um grupo de 13 amigos que foi até Pirapora  fazer suas orações. Desde então, passou a ser realizada todos os anos e se tornou uma tradição passada de pai para filho. 

    Atualmente, reúne cerca de 1.500 romeiros, que fazem a peregrinação a pé, cavalo, charrete e bicicleta. É a mais antiga do Estado de São Paulo.

    Mas ela também gera tristezas: em 1936, a romaria saiu de Jundiaí em 9 de maio, sábado, e na volta no domingo, um dos romeiros, Marcos Justino de Oliveira caiu do cavalo, vindo a falecer, conforme noticiou a Folha da Manhã. Segundo o mesmo jornal, mais de quatrocentos cavaleiros participaram da romaria.

    Vale a pena lembrar também a Romaria Pedestre de Vila Arens, que teve início em 1935, com 6 participantes e da qual hoje participam cerca de 600 pessoas; ambas as romarias ocorrem no mês de maio.    

    sexta-feira, 29 de abril de 2016

    LEONARDO CAVALCANTI: UMA HISTÓRIA TRÁGICA

    O Mackenzie College (esquina das ruas Maria Antonia e Itambé)
    Leonardo de Albuquerque Cavalcanti era o segundo filho do médico Francisco de Albuquerque Cavalcanti, o Dr. Cavalcanti que foi prefeito de nossa cidade e de Alice Ulhoa Cintra. 

    Nascido em São Paulo em 1º de julho de 1892, estudou no Colégio São Luis e depois graduou-se em engenharia pelo então Mackenzie College (hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie), ambos em São Paulo.

    A seguir mudou-se para os Estados Unidos, para fazer um curso de pós-graduação de três anos na Escola de Engenharia Elétrica da Universidade de Princeton, onde em 1916 ganhou a medalha Charles Ira Young, concedida a pesquisadores que se destacam na área de Engenharia Elétrica. Neste mesmo ano tornou-se um associado ao IEEE, o Institute of Electrical and Electronics Engineers, uma das mais importantes associações profissionais de todo o mundo.

    Documento da polícia acerca do acidente 
    Nos Estados Unidos trabalhou para a Western Electric e para a Westinghouse; ao retornar ao Brasil, trabalhou na Cia. Campineira de Luz e Força e, em 1920, convidado pelo engenheiro Francisco Paes Leme de Monlevade, então superintendente da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, foi trabalhar na ferrovia, que iniciava a eletrificação de mais um trecho.

    Faleceu aos 32 anos, na noite de 29 de abril de 1925, ao tocar inadvertidamente em um cabo de alta tensão enquanto trabalhava no pátio de manobras da empresa em Campinas - sua morte foi instantânea. 
    Obituário publicado pelo Journal do IEEE
    Quem entra no cemitério Nossa Senhora do Desterro pela alameda central, vê logo à sua direita um jazigo com uma escultura de uma jovem debruçada sobre um caixão - é a sepultura de Leonardo. 

    Conta-se que durante o enterro, Yole Motta, que seria sua namorada, teria se lançado sobre o caixão e prometido amor eterno - Yole veio a falecer 45 anos depois, solteira, conforme sua promessa. 

    O túmulo

    domingo, 24 de abril de 2016

    ADHEMAR DE BARROS VISITA JUNDIAÍ: BAJULAÇÃO, DISCURSOS E INAUGURAÇÕES

    Adhemar
    Durante a ditadura Vargas, os governadores dos estados eram indicados pelo governo central, sendo chamados “interventores”.


    Marcondes
    Em 25 de maio de 1941, o então interventor Adhemar de Barros (que teria sido o primeiro a ser chamado ‘rouba, mas faz’), visitou nossa cidade. Aqui chegou de trem vindo de Campinas, que visitara antes. Segundo o Correio Paulistano, o interventor foi recebido na estação pelo prefeito Manuel Anibal Marcondes, que seria assassinado algum tempo depois.   


    No desfile
    De carro, seguiram para a Praça Rui Barbosa, onde houve um desfile, do qual participaram alunos de diversas escolas (Conde do Parnaíba, Francisco Telles, Siqueira de Moraes, Ginásio Rosa etc). 

    Segundo o jornal, estavam presentes também cerca de vinte mil trabalhadores das indústrias têxteis, cerâmicas, químicas etc. - não se deve esquecer que os jornais eram controlados pela ditadura Vargas, portanto esse número talvez não seja confiável, tendo em vista o tamanho da cidade à época. 
    O almôço no Grêmio
    Por volta das 14 horas, o grupo dirigiu-se ao Grêmio CP para o almoço, onde à sobremesa ouviu discurso do Prefeito, ao qual Adhemar respondeu com outro discurso, ambos longuíssimos e que são transcritos na íntegra pelo Correio. E como se gostava de discursos: ao chegar ao Grêmio, Adhemar já fora saudado por uma criança e depois de seu discurso, Eloy Chaves, “num rápido improviso”, ergueu um brinde ao governador...
    Deixando o Grêmio, a comitiva dirigiu-se ao local onde seria lançada a pedra fundamental do edifício da Caixa Econômica Estadual - seria na Rua Barão de Jundiaí? Ali, mais um discurso, desta vez de Olavo de Queiroz Guimarães.
    A seguir, por volta das 16 horas o grupo foi à Prefeitura, que na época situava-se na Rua Barão: ali seria colocado um retrato de Adhemar, descrito como “um dos vultos que mais haviam trabalhado pela pátria e mereceram as homenagens do município de Jundiahy”. E mais um longo discurso, desta vez de Waldomiro Lobo da Costa.

    E mais: lançamento da pedra fundamental do Parque Infantil, onde hoje se localiza o Terminal Central, inauguração do reservatório “Adhemar de Barros”, do “Serviço de Abastecimento de Água de Jundiahy” (seria onde hoje se localiza o Velório Municipal?), visita ao Hospital São Vicente - e mais discursos: no primeiro desses eventos, falou Tibúrcio Estevam de Siqueira.
    A fonte luminosa

    Pelas 19 horas, a comitiva chegou à Praça Pedro de Toledo, em frente à Catedral, para inauguração da Fonte Luminosa: mais um discurso, desta vez de Alceu de Toledo Pontes. Adhemar descerrou a placa comemorativa, com a fonte entrando em funcionamento.

    A seguir, outro discurso: João Baptista Figueiredo, “falando em nome do povo”... Logo depois, o Tenis Clube Paulista ofereceu um lanche a Adhemar, que se despediu e foi para a estação ferroviária, de onde seu trem partiu às 20:15, chegando a São Paulo às 21:20 – muito mais rapidamente que os trens atuais, 75 anos depois. 

    Os atuais, observe-se,  são ainda mais lentos que os de 1867, como mostra o primeiro horário da EF Santos a Jundiaí: