sexta-feira, 29 de abril de 2016

LEONARDO CAVALCANTI: UMA HISTÓRIA TRÁGICA

O Mackenzie College (esquina das ruas Maria Antonia e Itambé)
Leonardo de Albuquerque Cavalcanti era o segundo filho do médico Francisco de Albuquerque Cavalcanti, o Dr. Cavalcanti que foi prefeito de nossa cidade e de Alice Ulhoa Cintra. 

Nascido em São Paulo em 1º de julho de 1892, estudou no Colégio São Luis e depois graduou-se em engenharia pelo então Mackenzie College (hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie), ambos em São Paulo.

A seguir mudou-se para os Estados Unidos, para fazer um curso de pós-graduação de três anos na Escola de Engenharia Elétrica da Universidade de Princeton, onde em 1916 ganhou a medalha Charles Ira Young, concedida a pesquisadores que se destacam na área de Engenharia Elétrica. Neste mesmo ano tornou-se um associado ao IEEE, o Institute of Electrical and Electronics Engineers, uma das mais importantes associações profissionais de todo o mundo.

Documento da polícia acerca do acidente 
Nos Estados Unidos trabalhou para a Western Electric e para a Westinghouse; ao retornar ao Brasil, trabalhou na Cia. Campineira de Luz e Força e, em 1920, convidado pelo engenheiro Francisco Paes Leme de Monlevade, então superintendente da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, foi trabalhar na ferrovia, que iniciava a eletrificação de mais um trecho.

Faleceu aos 32 anos, na noite de 29 de abril de 1925, ao tocar inadvertidamente em um cabo de alta tensão enquanto trabalhava no pátio de manobras da empresa em Campinas - sua morte foi instantânea. 
Obituário publicado pelo Journal do IEEE
Quem entra no cemitério Nossa Senhora do Desterro pela alameda central, vê logo à sua direita um jazigo com uma escultura de uma jovem debruçada sobre um caixão - é a sepultura de Leonardo. 

Conta-se que durante o enterro, Yole Motta, que seria sua namorada, teria se lançado sobre o caixão e prometido amor eterno - Yole veio a falecer 45 anos depois, solteira, conforme sua promessa. 

O túmulo

domingo, 24 de abril de 2016

ADHEMAR DE BARROS VISITA JUNDIAÍ: BAJULAÇÃO, DISCURSOS E INAUGURAÇÕES

Adhemar
Durante a ditadura Vargas, os governadores dos estados eram indicados pelo governo central, sendo chamados “interventores”.


Marcondes
Em 25 de maio de 1941, o então interventor Adhemar de Barros (que teria sido o primeiro a ser chamado ‘rouba, mas faz’), visitou nossa cidade. Aqui chegou de trem vindo de Campinas, que visitara antes. Segundo o Correio Paulistano, o interventor foi recebido na estação pelo prefeito Manuel Anibal Marcondes, que seria assassinado algum tempo depois.   


No desfile
De carro, seguiram para a Praça Rui Barbosa, onde houve um desfile, do qual participaram alunos de diversas escolas (Conde do Parnaíba, Francisco Telles, Siqueira de Moraes, Ginásio Rosa etc). 

Segundo o jornal, estavam presentes também cerca de vinte mil trabalhadores das indústrias têxteis, cerâmicas, químicas etc. - não se deve esquecer que os jornais eram controlados pela ditadura Vargas, portanto esse número talvez não seja confiável, tendo em vista o tamanho da cidade à época. 
O almôço no Grêmio
Por volta das 14 horas, o grupo dirigiu-se ao Grêmio CP para o almoço, onde à sobremesa ouviu discurso do Prefeito, ao qual Adhemar respondeu com outro discurso, ambos longuíssimos e que são transcritos na íntegra pelo Correio. E como se gostava de discursos: ao chegar ao Grêmio, Adhemar já fora saudado por uma criança e depois de seu discurso, Eloy Chaves, “num rápido improviso”, ergueu um brinde ao governador...
Deixando o Grêmio, a comitiva dirigiu-se ao local onde seria lançada a pedra fundamental do edifício da Caixa Econômica Estadual - seria na Rua Barão de Jundiaí? Ali, mais um discurso, desta vez de Olavo de Queiroz Guimarães.
A seguir, por volta das 16 horas o grupo foi à Prefeitura, que na época situava-se na Rua Barão: ali seria colocado um retrato de Adhemar, descrito como “um dos vultos que mais haviam trabalhado pela pátria e mereceram as homenagens do município de Jundiahy”. E mais um longo discurso, desta vez de Waldomiro Lobo da Costa.

E mais: lançamento da pedra fundamental do Parque Infantil, onde hoje se localiza o Terminal Central, inauguração do reservatório “Adhemar de Barros”, do “Serviço de Abastecimento de Água de Jundiahy” (seria onde hoje se localiza o Velório Municipal?), visita ao Hospital São Vicente - e mais discursos: no primeiro desses eventos, falou Tibúrcio Estevam de Siqueira.
A fonte luminosa

Pelas 19 horas, a comitiva chegou à Praça Pedro de Toledo, em frente à Catedral, para inauguração da Fonte Luminosa: mais um discurso, desta vez de Alceu de Toledo Pontes. Adhemar descerrou a placa comemorativa, com a fonte entrando em funcionamento.

A seguir, outro discurso: João Baptista Figueiredo, “falando em nome do povo”... Logo depois, o Tenis Clube Paulista ofereceu um lanche a Adhemar, que se despediu e foi para a estação ferroviária, de onde seu trem partiu às 20:15, chegando a São Paulo às 21:20 – muito mais rapidamente que os trens atuais, 75 anos depois. 

Os atuais, observe-se,  são ainda mais lentos que os de 1867, como mostra o primeiro horário da EF Santos a Jundiaí:



domingo, 17 de abril de 2016

CRUELDADE E BUROCRACIA

A praça na atualidade
Na cidade de Campinas, no dia 9 de novembro de 1835, no largo de Santa Cruz (hoje Praça XV de Novembro), foi enforcado e esquartejado o escravo Elesbão. Elesbão foi condenado por ter assassinado, no dia 20 de maio de 1831, o seu senhor, o capitão Luiz José de Oliveira, tendo a seguir bebido seu sangue. No processo, foram interrogados 18 escravos e 35 outras testemunhas. 

Segundo o processo, Elesbão era "um africano, pertencente à nação cabinda, de estatura ordinária, rosto comprido, testa pequena, cabelos encarapinhados, nariz chato, boca resgada, beiços grossos, pouca barba, e parecendo ter vinte anos, solteiro".

O crime teria sido cometido por Elesbão e por outro escravo, Narciso, que pertenciam ao Capitão e haviam fugido, voltando para mata-lo. Narciso foi preso e executado no dia 24 de maio de 1833, em São Paulo. Elesbão estava foragido, mas em 1835 foi capturado por capitães do mato; sempre se declarou inocente, dizendo serem os criminosos Narciso e Luiz Congo, escravos que queriam fugir do castigo acusando-o.

O crime teria sido cometido com o uso de faca (Elesbão) e foice (Narciso), e o motivo teria sido o excesso de trabalho dado aos escravos; o capitão teria também abusado de uma namorada do escravo. O Capitão era dono do Engenho Romão, situado entre Jundiaí e Itu, e os assassinos viviam em um quilombo situado na região de Itatiba, onde viviam
sete escravos fugidos desse engenho, inclusive Luiz Congo. 

A execução era um espetáculo público – muitos donos de escravos enviavam os seus para o assistirem, como forma de “educação”. Conta-se que um cortejo saiu da cadeia, formado pelas autoridades, réu, vigário e pelo carrasco; a seguir, a infantaria da Guarda Nacional e fechando o préstito a cavalaria da mesma Guarda. 

Dirigiram-se todos à Matriz, onde foi realizada missa da qual o condenado tomou parte. Em seguida, o grupo desfilou pelas ruas mais importantes da cidade, seguindo para o local do suplício, onde a sentença foi cumprida por volta do meio dia, tendo Elesbão, mais uma vez, afirmado ser inocente. 

À sentença de condenação à morte, foi acrescentada pelo juiz José Mendes Ferraz a determinação que se segue: “declaro que depois do réu sofrer a pena de morte cortar-se-ão as mãos e a cabeça; esta será remetida para a Vila de Jundiaí, e ali colocada num poste em lugar público e aquelas serão colocadas nesta Vila em um poste também em lugar público”. 

A burocracia já imperava: o referido juiz mandou entregar a cabeça ao juiz de nossa cidade, acompanhada de uma carta que dizia: “o portador desta entregará a Vª. Sª. a cabeça do justiçado Elisbão, para Vª. Sª. mandar coloca-la em um poste, em lugar público, conforme determina a sentença aplicada ao mesmo. Vª. Sª. me remeterá o recibo para constar” – o juiz de Campinas pedia o recibo da cabeça!!!  A burocracia realmente já imperava.

E mais um detalhe macabro: a carta de remessa da cabeça estava datada de 10 de dezembro, um mês após a execução! A cabeça foi colocada em uma caixa e envolvida em sal, e foi trazida a Jundiaí por dois portadores, que receberam pelo trabalho 4 mil e quatrocentos réis - a forca havia custado 33 mil réis e o facão usado para cortar a cabeça e as mãos custou um mil e seiscentos réis. Segundo recomendação da Câmara Municipal de Campinas, a forca deveria ser construída "com alguma segurança e firmeza, para servir em outras ocasiões semelhantes."

Infelizmente crueldades seguem ocorrendo e a burocracia dominando...

domingo, 10 de abril de 2016

LITORINA: LIGANDO SÃO PAULO A CAMPINAS COM CONFORTO E SEGURANÇA

A litorina em uma estação entre Jundiaí e S. Paulo
Muitos jundiaienses, que estudaram ou trabalharam em São Paulo e Campinas, ainda se lembram das “litorinas”, trens que ligavam aquelas cidades, com parada em Jundiaí.
Esses trens, de propriedade da EF Santos a Jundiaí eram operados conjuntamente por esta e pela Cia. Paulista, e pretendiam competir diretamente com os serviços de ônibus recém-surgidos que usavam a Via Anhanguera, então recentemente inaugurada.
Tecnicamente chamados TUE (Trens Unidades Elétricos),
Saindo da Estação da Luz (ao fundo, a Estação Júlio Prestes)
eram pintados de marrom, com faixas amarelas. As litorinas eram formadas por um carro-motor (central) e dois carros-reboque; seu peso vazio era de 111,25 toneladas, com potência de 800 HP e podendo acomodar até 198 passageiros sentados em bancos de couro verde e palhinha, a uma velocidade máxima segura de 110 km/h.
Elas foram entregues à E.F. Santos a Jundiaí entre julho e setembro de 1952, permanecendo em serviço por cerca de 30 anos. Foram construídos pela English Electric, tradicional fornecedora de locomotivas para a EFSJ.
As litorinas tinham o apelida de “Gualicho”, um famoso cavalo de corridas da época e que foi o único cavalo da história a vencer os GPs São Paulo e Brasil por dois anos consecutivos, em 1952 e 1953, pilotado por Olavo Rosa. Gualicho quebrou  o recorde dos 3.000 metros nos dois hipódromos, sendo que no prado paulista a marca ainda vigorava em 2015. 
A título de curiosidade, cabe dizer que Gualicho nasceu na Argentina...
O triste fim: sucata em Paranapiacaba

terça-feira, 5 de abril de 2016

DIOGENES DUARTE PAES - UM GRANDE ARTISTA DE NOSSA TERRA

Folia do Divino
O jundiaiense Diógenes Duarte Paes nos anos 1950 era considerado o maior aquarelista do Brasil. 
O artista,  nascido em 29 de janeiro de 1896, desde cedo mostrou ter vocação para a pintura, herdada de seu avô  João Batista de Faria Paes. Permaneceu em Jundiaí até o início dos anos 20, quando se mudou para São Paulo, onde  estudou desenho e pintura com o inglês John Appleby e com Antonio Rocco.
Escola da Nhazinha Gata
Além de aquarelas com cenas de Jundiaí e outras cidades, Paes produziu óleos sobre tela. Sua primeira exposição importante, com 50 trabalhos em aquarela, aconteceu em São Paulo, na Galeria Itá, em 1946. Em 1948 expôs na livraria do Mappin, então a loja mais sofisticada de São Paulo. 


Pharmacia da Boa Prosa
Em 1951 apresentou no Museu de Arte de São Paulo a “Exposição de Desenhos Folclóricos”, que constava de 30 obras entre elas “Folia do Divino”, “O pito de barro”, “Recomenda das almas”, “Domingo de Ramos”, “Antegozando os fogos” e “Depois da procissão”.
Depois da procissão - anjo rico e anjo pobre
Suas obras mais interessantes mostram cenas de nossa cidade; dentre elas, uma sala de aula da escola da professora “Nhazinha Gata”, que funcionava na Rua Baroneza do Japy e uma cena típica das cidades do interior: em “Pharmacia da Boa Prosa”,   grandes nomes da sociedade jundiaiense da época conversavam, dentre eles  o   farmacêutico Zacharias de Góes, Carlos Salles Block, o dentista Conrado Augusto Offa, o prefeito Valdomiro Lobo da Costa e o padre Lúcio Xavier de Castro.
Rua do Rosário - ao fundo a igreja  Nossa Senhora
 do Rosário dos Pretos, demolida em 1922
para a abertura da Rua Maj. Sucupira
Profundamente inserido na vida de nossa cidade, Paes fez parte da Banda Aurifulgente, grupo carnavalesco de nossa cidade fundado em 1915. Na época, para pertencer à Banda, havia um requisito: não se podia saber tocar qualquer instrumento... O jornal “Folha da Manhã”, de 1º de março de 1935 dizia que Paes foi o primeiro regente da Banda!
A Igreja Matriz
Paes também criou a bandeira de nossa cidade, que aparece no alto deste blog - venceu concurso estabelecido para sua criação e escreveu para diversas publicações de nossa cidade e da capital. Muito culto, falava inglês, francês e espanhol.
O artista faleceu em 1964 e dá nome à pinacoteca de nossa cidade, instalada no prédio do antigo Grupo Escolar Coronel Siqueira de Moraes e a uma escola situada no Bairro do Retiro.


 Praia das Astúrias, Guaruja  
 A Ponte Torta 

segunda-feira, 28 de março de 2016

A CICA E OS FIGOS RAMY - DOCES LEMBRANÇAS

Muitos brasileiros ficaram inconformados quando a CICA, a nossa Companhia Industrial de Conservas Alimentícias interrompeu a produção dos Figos Ramy em 1986. 
O doce tinha virado paixão nacional. Na sua elaboração a fruta transformava-se em passas carnudas, embebidas numa calda tão grossa que parecia mel; o figo é a primeira fruta citada na Bíblia, quando Adão e Eva perceberam estar nus e cobriram-se com as folhas da figueira.
O fato de as pessoas apreciarem os Figos Ramy, porém, não se devia à nenhuma motivação religiosa, apesar de doce ter um sabor divino - e vinha em latas redondas, pesando 600 gramas. Na lata, a CICA acondicionava as frutas lado a lado, apertadas e úmidas. Eram escuras, porém brilhantes e tenras. 
A produção se restringia aos meses de janeiro, fevereiro e março, que correspondem à safra do figo. Chegaram a ser produzidas 300 mil latas por ano. As passas eram comidas puras, usando garfo e colher (para não desperdiçar a calda), ou com a mão, segurando os figos pelo cabinho. Harmonizavam-nas com creme de leite, requeijão cremoso, suspiro ou sorvete de creme. 
Conforme disse o renomado jornalista J. A. Dias Lopes, na década de 1960 o pintor Di Cavalcanti quando vinha a São Paulo e se hospedava no antigo hotel Ca’d’Oro da rua Basílio da Gama,  servia-os com fatias de laranja aos amigos e interessados nos seus quadros. "As laranjas quebram a doçura dos Figos Ramy e assim se consegue comer mais”, explicava. Eu, pessoalmente, gostava de acompanhar os figos com vinho do Porto. 
Os Figos Ramy começaram a ser produzidos em 1945 e deixaram o mercado um ano antes de a empresa ser vendida ao grupo Ferruzzi. “Era muito caro produzi-los”, explica Salvador Messina Neto, o Turillo, último vice-presidente da antiga CICA. “Havia bastante descarte”. 

Ele conta que os figos, do tipo roxo, procediam inicialmente de Jundiaí e depois também de Valinhos. Deviam estar maduros, porém firmes, ou seja, inchados. Muito delicados, machucavam-se facilmente, complicando o transporte e a preservação. “O custo era alto, o preço de uma lata ficava elevado e não valeu a pena continuar”, concluiu Messina.
A CICA registrou o nome comercial do doce com “y”, inspirado no bairro de Vila Rami, onde existia uma fazenda onde o rami, uma fibra têxtil havia sido cultivada. Na fazenda havia uma cerâmica, que depois se transformou na Cidamar, hoje Roca,  e muitas figueiras e pertencia à família Cardia. 

Um dos seus empregados, Carlo, colhia os figos, secava-os no forno da cerâmica, embalava-os em papel celofane e os vendia na cidade. Um dos fundadores da CICA, o siciliano Comendador Antonino Messina, pai de Salvador Messina, encantou-se com o doce e decidiu industrializá-lo. 

Mas, para produzi-lo em maior quantidade, precisou superar dificuldades técnicas. Para isso, contratou Carlo e um confeiteiro italiano chamado Magnani. O trio desenvolveu um método no qual as frutas cozinhavam até alcançar 50 brix (escala numérica para medir a quantidade de açúcar) e terminavam na estufa - é um processo muito longo, complexo e caro, como disse Messina.
No fim de sua trajetória, o Figo Ramy acabou sendo exportado para diversos países, inclusive para Dinamarca e Suécia. Atualmente, encontramos nos supermercados vários produtos  com o mesmo nome, mas nenhum é tão bom quanto o original - como se dizia, "quem experimentou, experimentou. Quem não experimentou não experimentará mais"...
Para encerrar, uma vista da fábrica da CICA e suas imediações, nos anos 1960.  

terça-feira, 22 de março de 2016

BAIXARIA NA CÂMARA MUNICIPAL

Omair Zomignani
Na sessão da Câmara de 29 de janeiro de 1959, o então vereador, depois prefeito e deputado estadual Omair Zomignani (1926/2016), discursou  pedindo, de forma agressiva, a renúncia do prefeito Vasco Antônio Venchiarutti e do vereador José Poli.
Segundo Omair, a renúncia deveria ocorrer “para o bem de Jundiaí de seu povo”, em função da gravidade da situação administrativa da Prefeitura, decorrente de um regime de proteções e perseguições implantado por um grupo de funcionários graduados.
Omair citou nominalmente Idalina Pereira da Costa, chefe do setor de Dívida Ativa – ela era casada com o vereador do PTB Alberto da Costa (1904/1964), que presente à sessão ouviu calado o discurso, ao final do qual um filho do casal invadiu o plenário para agredir Omair, exigindo que esse confirmasse suas acusações. A “turma do deixa disso” impediu que a situação se agravasse, e com a chegada de elementos da Força Pública (hoje Polícia Militar) e da Guarda Municipal, a situação se normalizou.
Para dar prosseguimento aos trabalhos, o presidente da Câmara, vereador Lázaro de Almeida (o Arquimedes, farmacêutico em Vila Arens) pediu que a sala de sessões fosse evacuada, mas o vereador Alberto discordou, afirmando que gostaria de fazer a defesa de sua esposa publicamente, pois ela fora acusada com presença do público.
Alberto começou se discurso acusando  a maioria dos funcionários da Prefeitura de serem “vagabundos”, que “passavam os dias em botequins”. Omair reagiu a essas afirmações de maneira agressiva, o que levou o Presidente a encerrar a sessão, para evitar que este e Alberto se agredissem...
Omair era advogado e comerciante e sucedeu a Vasco como prefeito para o período 1960/1963, tendo também sido eleito pelo PTB. Iniciou seus estudos no Grupo Escolar Conde do Parnaíba. Foi estudar em São Paulo, onde fez os antigos cursos ginasial e científico nos renomados colégios   Dante Alighieri,   Paulistano e   Ateneu. Fez seus estudos superiores na  Faculdade de Direito do Rio de Janeiro.
Alberto da Costa, nascido no Rio de Janeiro, ao perder a mãe ainda criança, veio viver em nossa cidade com seus tios. Vereador por 16 anos, foi funcionário da Cia. Paulista durante praticamente toda sua vida e pertencia aos Vicentinos, tendo, nessa qualidade trabalhado muito pela implantação da Cidade Vicentina, à época chamada “Vila dos Pobres”. Era formado em Contabilidade pelo então Ginásio Rosa.
Os fatos foram relatados pelo jornal Folha da Manhã, de São Paulo, em sua edição do dia seguinte, 30 de janeiro de 1959.

domingo, 20 de março de 2016

O CONDE DO PARNAHYBA

Antônio de Queirós Telles, o Conde do Parnahyba, nascido em nossa cidade em 16 de agosto de  1831, foi advogado, empresário, proprietário rural e político. 
Era o oitavo filho do Barão de Jundiaí e de Anna Liduína de Morais e irmão do Barão do Japi, Joaquim Benedito de Queirós Teles. Formou-se em 1851 pela Faculdade de Direito de São Paulo, onde se matriculou em 1850 (o curso era muito mais rápido que na atualidade). Casou-se em 13 de junho de 1854 em Itu com Rita M'Boi Tibiriçá, tendo com ela cinco filhos. Foi Barão, Visconde e finalmente Conde do Parnahyba, título que recebeu em 3 de dezembro de 1887; era também Comendador da Ordem de Cristo, do então Reino de Portugal.
Iniciou a carreira de advogado em Itu, logo também iniciando na política, tendo sido eleito à Assembléia Provincial por três biênios, de 1856 a 1861. Seu mais alto cargo político foi o de presidente (hoje governador) da Província de São Paulo, entre 1886 e 1887. Uma de suas mais importantes obras como governador foi a construção da Hospedaria dos Imigrantes, finalizada em 1888; estimulou a imigração italiana para a província de São Paulo, tendo sido um dos criadores do Núcleo Colonial Barão de Jundiaí, no bairro da Colônia,   recebendo o título de “Apóstolo da Imigração”.   
Sempre se mostrou preocupado e interessado no tema da imigração e colonização do interior da província. Foi também fundador (1872) e presidente da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro de 1873 a 1886. Como curiosidade, vale lembrar que a Mogiana atingiu seu ponto máximo de expansão em 1922, quando chegou a 2 mil km de linhas – em 1971 quando foi absorvida pela Fepasa, esse número já havia caído para 1,5 mil – é mais uma faceta do declínio de nossas ferrovias.
Faleceu em Campinas (6 de maio de 1888) em  virtude da febre amarela, contraída no Rio de Janeiro, para onde havia ido acompanhar um filho que seguia para a Europa.
O corpo chegou a Jundiaí às 4 da tarde, sendo recebido na estação ferroviária por uma grande multidão e levado “ao palacete de seu irmão Francisco A. de Queirós Telles” (seria o Solar do Barão?)
O enterro saiu às 10 horas do dia seguinte, presentes inúmeras autoridades e pessoas de destaque, dentre as quais seu grande amigo, o arquiteto Ramos de Azevedo e, segundo o jornal Correio Paulistano, “mais de mil jundiahyanos”.
O jornal dedica extensa nota à sua memória, que conclui alfinetando seus concorrentes, dizendo que foi o único jornal a estar presente ao enterro, que chamou de “sahimento fúnebre”.
Já o jornal Imprensa Ytuana, de 13 de maio de 1888, noticiava missa cantada em memória do Conde, realizada na véspera na “Egreja da Ordem Terceira de S. Francisco” daquela cidade, com a presença de autoridades e amigos – a nota concluía-se dizendo que à porta do templo “estava postada a força desta cidade, com 20 praças com as armas em funeral”.
Em 1890, Estevam  Leão Bourroul, publicou a obra “O Conde do Parnahyba, apontamentos biográficos” , em que narra a vida do Conde, que dá seu nome a uma as mais tradicionais escolas de nossa cidade (fundada em 1906), que mantém um interessante blog. A foto acima mostra uma imagem da escola em 1926.

quarta-feira, 16 de março de 2016

ESPORTIVA - QUASE SÓ SAUDADE

A  velha e querida Associação Esportiva Jundiaiense, foi fundada em 1926 por funcionários da  Cia. Paulista de Estradas de Ferro.
Instalada inicialmente às margens do rio Jundiaí, reunia praticantes de futebol, atletismo, basquete e boxe; havia também  barcos para passeios e pesca no rio. Em 1929 transferiu-se para a então Chácara das Laranjeiras, onde se situou sua sede social, hoje demolida para a construção de prédios de apartamentos - a área foi vendida para quitar dívidas trabalhistas
A área ocupada pela Esportiva formava um quadrilátero, delimitado pelas ruas XV de Novembro, Padroeira, Torres Neves e Avenida União dos Ferroviários, por onde anteriormente passavam os trilhos da Sorocabana.
Ali foi  construída a melhor e mais bonita quadra de basquete da cidade; em 1931 a Esportiva conquistou o título municipal da modalidade. 
Em 1932 iniciaram-se as obras de sua primeira piscina e do prédio sede, o saudoso "Chalé" (de madeira) que servia também para aulas de ginástica, esgrima, tênis de mesa, etc. Em meados dos anos 60, adquiriu sua sede de campo, ao mesmo tempo em que iniciou as obras do ginásio em sua sede central, inaugurado em 1972.
A Esportiva sempre foi uma  força nos esportes coletivos, tendo sido pioneira na prática do basquete, voleibol e futebol de salão; uma de suas primeiras equipes aparece na foto ao lado, preparando-se para jogar na quadra antiga, com arquibancadas de madeira.
Em sua edição de 14 de maio de 1937, o jornal “Folha da Manhã”, de São Paulo, noticiava a realização do campeonato de voleibol (o esporte era chamado “volebol”) da Esportiva, com as escalações das equipes, que eram chamadas “turmas” – membros de tradicionais famílias de nossa cidade ali aparecem, como mostra o recorte ao lado. 
Já em 4 de fevereiro de 1940, o  mesmo jornal noticiava a eleição de sua nova diretoria, presidida por Benedicto d’Olival Fray,  composta por diversas personalidades de renome - ao final deste texto, a notícia. Como curiosidade, Fray fora o capitão da "Turma América", que disputara o campeonato de vôlei de 1937.
Grandes atletas defenderam as cores da Esportiva e do Brasil em eventos internacionais, dentre eles o medalhista olímpico no salto triplo Nelson Prudêncio,  o halterofilista Paulo Batista de Sene e Jurandir Ienne, do atletismo, ambos  campeões sul americanos; o prof. Hélio Maffia, figura de proa do esporte nacional, também foi atleta e treinador de equipes da Esportiva.
Também a atriz jundiaiense Eloisa Mafalda, nome artístico de Mafalda Theotto, foi atleta esportivana, tendo disputado na adolescência,  com sucesso, inúmeros campeonatos de natação.
É muito triste constatar  que o atual estilo de vida, que tornou menos importantes os clubes; isso, somado a algumas administrações ruinosas, levou um clube tão tradicional à triste situação em que se encontra a Esportiva, hoje reduzida a um punhado de sócios que se encontram em sua sede de campo, na estrada que liga nossa cidade a Itatiba.

segunda-feira, 14 de março de 2016

COM ELOY CHAVES, A ENERGIA ELÉTRICA CHEGA A JUNDIAÍ

Chaves na maturidade
Eloy Marcondes de Miranda Chaves (1875-1964) nasceu em Pindamonhangaba; criança ainda foi viver no Equador, onde o pai, diplomata, era o Cônsul Geral do Brasil. Graduado em Direito,  chegou a Jundiaí em 1897, para assumir o cargo de promotor, transferido de São Roque. Em 1898 casou-se com Almerinda Mendes Pereira,  de tradicional família de nossa cidade; tiveram dois filhos, Vail Chaves e Antonieta Chaves Cintra Gordinho.
Muito cedo,  renunciou ao cargo de promotor e enveredou para a política, elegendo-se vereador e depois deputado federal pela legenda do Partido Republicano Paulista – PRP. Foi secretario estadual da Justiça e da Segurança Pública e criou a  “Lei Eloy Chaves”, de 24 de janeiro de 1923, instituindo a primeira Caixa de Aposentadoria e Pensão dos Ferroviários, a base da política previdenciária nacional, da qual resultaria o atual INSS – Eloy é chamado “O Pai da Previdência Social”. 
Foi também empresário e um dos responsáveis pela chegada da energia elétrica a Jundiaí; em discurso de 1960 contou ele que:
O Solar do Barão e o Largo da Matriz, já com luz
“... a instalação de eletricidade em nossa terra nasceu no correr de uma festa realizada nos fidalgos salões (Solar do Barão) de um jundiaiense ilustre – o Sr. Francisco de Queiroz Telles. No decorrer da seleta reunião, dois ilustres engenheiros, o Dr. Edgard de Sousa e Aguiar de Andrade, o primeiro recém-chegado da Bélgica, onde fizera brilhantes estudos que o autorizaram a entrar em alta função da Light and Power, que iniciava então em São Paulo os seus grandiosos projetos. Chegaram a uma das janelas da velha mansão, que dá para o largo da Matriz, e, vendo a luz bruxoleante dos vetustos lampiões que escassamente iluminavam a cidade – se dirigiram a mim e indagaram porque em Jundiaí não se havia ainda cogitado da instalação da luz elétrica na cidade. Perguntei em réplica aos meus interrogadores se estavam dispostos a formar, com elementos de prol da cidade, uma empresa que levasse avante o grande melhoramento. Acolhida a ideia com entusiasmo, formou-se a Empresa denominada Luz e Força de Jundiaí.”
Em 1904 empresa recebeu autorização para funcionar, e assumiu o compromisso de instalar inicialmente a iluminação pública: seriam 250 lâmpadas de 32 velas (!) em postes de ferro espaçados entre 35 e 40 metros instalados na rua do Rosário, entre o Largo de São Bento e a rua Cândido Rodrigues e na rua Torres Neves, da estação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro ao centro da cidade – essa era a rua que dava acesso ao centro da cidade àqueles que chegavam a Jundiaí pelos trens da Paulista. Nas demais ruas a Empresa poderia empregar postes de madeira, nunca inferiores a quatro metros de altura.
A Matriz em 1910
Foram também beneficiados a Câmara Municipal, a Matriz e o Hospital São Vicente; em cada um desses locais seria instaladas dez lâmpadas de 16 velas (!). O Largo da Matriz e o Jardim Público também seriam iluminados.
Em 3 de novembro de 1905, o sistema foi inaugurado; A partir dai, o processo foi se acelerando, inclusive com a construção de pequenas hidrelétricas no rio Jundiaí; consta que houve também  uma usina térmica. A empresa foi vendida à Light em 1927.
Eloy Chaves, Sousa e Andrade acabaram por tornar-se grandes empresários na área de geração e distribuição de energia; Souza dá nome à Usina Hidrelétrica Edgard de Sousa,   localizada em  Santana de Parnaíba.
A Fazenda Ermida na atualidade
Chaves foi também proprietário de diversas fazendas, entre as quais a  Ermida (adquirida em 1905)  e  por algum tempo o principal acionista do extinto Banco do Commércio e Indústria de São Paulo S.A. (Comind), maior instituição financeira privada do Brasil na primeira metade do século XX e o maior operador brasileiro no comércio internacional de café,  da Cia. Cerâmica Jundiaiense (fundada nos anos 1920 e vendida ao grupo Itaú em 1968). Em 1915, associado com o empresário português Antônio Cintra Gordinho e com o engenheiro alemão Hermman Braune, constituiu a Cia. Ermida de Papel e Celulose, hoje Bignardi Papéis,  a maior fabricante brasileira de papel reciclado.
Em 1910, em sociedade com Olavo Guimarães, comprou a Companhia Jundiahyana de Tecidos e Cultura S.A., cujo nome foi alterado para   S.A. Industrial Jundiahyense. Em 1940 vendeu a empresa, que passou a chamar-se Companhia Fiação e Tecidos São Bento S.A.

Finalizando, Chaves teve alguma ligação (que não conseguimos identificar) com o Gymnasio Hydecroft, instituição de ensino que funcionou durante algum tempo em nossa cidade, como mostra a notícia ao lado, publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 7 de fevereiro de 1909. Teria ele investido também na área de educação? 

terça-feira, 8 de março de 2016

JOSÉ ROMEIRO PEREIRA

José Romeiro Pereira, nascido em nossa cidade em 17/12/1914, era filho do coronel Boaventura Pereira Neto e de Da. Josefina Romeiro. Fez o curso primário no antigo Colégio Florence, em Jundiaí, concluiu o secundário no Ginásio São Joaquim, em Lorena e ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. 
Participou da Revolução de 32, tendo servido no batalhão Borba Gato, constituído principalmente por estudantes; a foto abaixo mostra estudantes montando guarda à porta da Faculade, logo nos primeiros dias da revolução.  
Na Faculdade, destacou-se  orador oficial do Centro Acadêmico XI de Agosto, função que exerceu  também  na colação de grau de sua turma. Ainda na São Francisco, dirigiu a revista “O Progressista”; graduado, colaborou na “Revista Judiciária” e em praticamente todos os jornais de Jundiaí.
Foi também professor, tendo lecionado  Sociologia na antiga Escola Normal Livre de Jundiaí, Economia no Colégio Universitário  anexo à Faculdade de Direito de São Paulo, Direito Social na própria São Francisco (como assistente do professor Cesarino Júnior),  Direito Administrativo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Economia Política na Faculdade de Sociologia de São Paulo.
Como político,  em 1936 foi vereador à nossa Câmara Municipal, vindo a tornar-se prefeito da cidade  em dezembro de 1945, por nomeação do interventor estadual Carlos de Macedo Soares. Prefeito, suas principais realizações foram a reabertura do Parque Infantil da Praça da Bandeira, a pavimentação de inúmeras ruas da cidade e a vinda do Corpo de Bombeiros para nossa cidade, tornada urgente por um grande incêndio ocorrido, ao que parece, no pátio da Cia. Paulista.
Após deixar a Prefeitura em 1947, foi eleito Deputado Estadual; reelegeu-se em 1951 e, no final do seu mandato, em 1954, foi nomeado pelo governador Lucas Nogueira Garcez para chefiar três Secretarias de Estado: a de Governo, a Saúde e Educação. Nesse período, graças à sua atuação, Jundiaí viu expandirem-se ou serem criadas diversas escolas, entre as quais os grupos escolares Francisco Napoleão Maia e Francisco Monlevade e as então escolas primárias da Vila Rio Branco, do Caxambu e da Fábrica São Jorge, além de escolas mistas na Ponte de São João e na Cerâmica Japi.
Mais tarde, seu nome foi dado ao antigo Ginásio Estadual de Vila Arens (GEVA), situado nos altos de Vila Arens. Sempre muito envolvido com nossa cidade, foi um dos fundadores (1941) e presidente do Rotary Club de Jundiaí.
Faleceu prematuramente em 26/10/1961, tendo seu enterro sido acompanhado por uma multidão. Nessa ocasião, ocorreu um fato extraordinário: a  Ordem dos Advogados do Brasil indicara  um de seus membros,  o Dr. Peruche, tido como um dos melhores oradores do Estado para fazer o discurso fúnebre. Ao terminar o discurso, Peruche colocou a mão no peito e caiu morto, vítima de  um enfarte fulminante. Agora eram dois os cadáveres, o homenageante e o homenageado. Comoção intensa envolveu os presentes.