domingo, 20 de janeiro de 2019

NOSSA CIDADE EM 1818

Luís D'Alincourt (também grafado "de Alencourt" ) nasceu em Oeiras, Portugal, em 1787 - Oeiras é uma cidade próxima a Lisboa. Em 1799 iniciou carreira militar; em 1809, transferido para o Brasil (a família real aqui chegara no ano anterior), graduou-se pela antiga Academia Militar do Rio de Janeiro.

Membro do Corpo de Engenheiros, viajou muito por nosso país, cumprindo missões de pesquisa que lhe foram atribuídas pelo Exército - permaneceu no Exército Brasileiro após a independência - tendo falecido em 1841 no Espírito Santo, onde, com o posto de major, cumpria mais uma missão. 

Escreveu muito, sendo uma de suas mais importantes obras a "Memória sobre a viagem do porto de Santos à cidade de Cuiabá", relatando viagem que realizou em 1818; a obra foi publicada em 1825 e reeditada várias vezes. No livro, descreve nossa cidade, descrição que é objeto deste post, no qual procuramos manter a grafia original:  



"Jundiahy, pequena Vila na Latitude de 23º 6’40” e longitude de 46º 57’ a Oeste do Meridiano de Greenwich, menos de uma milha distante da margem esquerda do rio Jundiahy-Guacú, que lhe passa ao norte, e vai desaguar no Tietê, quatorze, para quinze léguas distante da direção, em que este rio corre próximo a S. Paulo; está colocada ao longo do cabeço de um monte, dez léguas ao Nor-noroeste desta Cidade: o monte tem suave declive até ao vale, que lhe fica ao Sudoeste; para o lado oposto a inclinação é mais áspera; as ruas são alinhadas, e largas, dispostas paralelamente umas às outras; todas as casas construídas de taipa e terras, à exceção de duas moradas, a maior parte delas são cobertas de telha vã (sem forro), e guarnecem as ruas com muita irregularidade em suas frentes, e alturas: a rua direita está no ponto mais elevado, disposta ao longo do cabeço do monte; depois segue-se a do meio, e são as mais povoadas; à rua do meio segue-se a nova, e a esta a da Boa Vista, que é mais baixa, e a menos povoada; a qual tem grandes espaços tapados com muros de taipa, e outros inteiramente abertos. 



Há nesta Vila três Igrejas; a Matriz, da invocação de Nossa Senhora do Desterro, colocada quase no centro da Vila, com uma pequena praça na frente; a de Nossa Senhora do Rosário, situada na extremidade da parte de S. Paulo (ocupava o espaço entre o prédio do Gabinete de Leitura e o antigo quartel) e a de S. Bento (o atual Mosteiro), no outro extremo, havendo entre esta, e a Vila, um comprido largo coberto de pequenos arbustos. 

Foi Jundiahy no seu princípio uma Freguesia,  erecta há perto de cento e oitenta anos: tira o nome do rio Jundiahy, e estes dos peixes chamados Jundiás, a cuja palavra juntando-se-lhe o y, que tendo na linguagem Indiana a pronúncia de ú francês, quer dizer rio, assim os dois substantivos formam um só nome que exprime rio de Jundiás, ou rio em que há Jundiás. 

É esta Vila pouco povoada, porque grande número de seus moradores, se aplica à cultura das terras; principalmente no tempo dos roçados para as plantações: e outros saem por camaradas, e arrieiros (tropeiros) das diversas tropas; que ali se arranjam do preciso, para seguirem jornada; e em que se empregam, todos os anos, de oitocentas a mil bestas, o que forma um mui útil ramo de negócio destes habitantes

O açúcar, aguardente, e toucinho são os principais gêneros de exportação: colhe-se milho em quantidade, arroz, legumes de várias qualidades, e especialmente feijão: fazem farinha de mandioca; plantam algum trigo, e criam gado vacum, e cavalar (em outro post já falamos da produção agrícola em nossa cidade)

Há no Termo perto de quarenta engenhos, entrando neste número os de aguardente, situados pela maior parte na serra de Japí, cinco léguas distante, que corre do Nordeste, ao Sudoeste, e fica ao Sueste da Vila: é o melhor local de todo o Termo para produzir a cana (em outro post já tratamos do assunto)

Ao rio Jundiahy-Guaçú se vão juntar os ribeiros Quapéba (Guapeva), e Mangabaú (Anhangabau), que atravessam a estrada geral; e passam junto à Vila. Uma grande parte de seus habitantes tem os pescoços defeituosos por causa da moléstia, a que vulgarmente chamam papos (bócio,  aumento do volume da tireoide geralmente causado pela falta de iodo), que ataca as pessoas de ambos os sexos, e até de menos idade; julga-se que esta moléstia provém da qualidade das águas.

Na noite de 6 para 7 de Setembro, estando eu aqui de pouso, às 11 horas pouco mais, ou menos, houve um tempestuoso furacão, que se fez notável pelos seus efeitos: a trovoada foi horrível, e, entre os muitos raios que ofenderam a terra, um caiu sobre a Matriz, o impetuoso vento arrancou telhas, derribou algumas casas, e fez grande estrago nas plantações, e arvoredos: disseram alguns velhos do lugar, que não se lembravam de ter havido um temporal semelhante nos seus dias".

Encerrando a menção à nossa cidade, D'Alincourt descreve a saída em direção a Campinas: "De Jundiahy segue o caminho no prolongamento da rua direita, e toma por detrás de S. Bento em ladeira, pelo declive, que tem o monte, que termina no rio Jundiahy-Guaçú, que se passa por uma ponte estreita, construída de madeira e corre nesta paragem do Nor-noroeste, ao Sul-sudoeste: junto a ele, da parte da Vila, há seis pequenas moradas de casas; e a este sítio dão o nome da ponte (Ponte de Campinas): a estrada vai a Oes-noroeste plana, e coberta de arvoredo". 

Sem dúvida, uma visão interessante da velha Jundiahy.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

UMA OCASIÃO FESTIVA: O COMPROMISSO À BANDEIRA EM 1938

A Folha da Manhã, em sua edição de 11 de junho de 1938, noticiava que no dia seguinte aconteceria o "juramento à bandeira" dos soldados que estavam sendo incorporados ao então 2º Grupo de Artilharia de Dorso, hoje 12º GAC.

Este é um evento emocionante, em que os novos soldados, juntos, dizem em voz alta:    
“Incorporando-me  ao Exército Brasileiro, prometo cumprir rigorosamente as ordens das autoridades a que estiver subordinado, respeitar os superiores hierárquicos, tratar com afeição os irmãos de armas, e com bondade os subordinados, e dedicar-me inteiramente ao serviço da Pátria, cuja honra, integridade, e instituições, defenderei com o sacrifício da própria vida”. A foto ao lado mostra o momento em que soldados fazem o juramento. 

Na ocasião haveria também um desfile e uma competição - um "cabo de guerra" para o qual eram esperados quatrocentos participantes. 

Na solenidade, falaria o então capitão João Paulo da Rocha Fragoso, que chegou a Marechal, tendo ocupado a Secretaria da Segurança de nosso estado e uma diretoria da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. 

Fragoso (1906-1978) foi casado com a sra. Irene Zaniratto, natural de nossa cidade 

 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

1941 - OS FOGÕES A GÁS COMEÇAVAM A SE POPULARIZAR EM JUNDIAÍ

Em 21 de fevereiro de 1941, O Estado de S. Paulo anunciava a inauguração da "agência distribuidora do Ultragaz" em nossa cidade. 

A empresa localizava-se à Av. Dr. Cavalcanti 1073, e estiveram presentes o Prefeito, representantes da imprensa e "pessoas gradas".  A Ultragaz foi criada em 1937, no Rio de Janeiro, e começou a operar com uma frota de três caminhões e 166 clientes; hoje, tem 5.000 pontos de venda. 

Por aqui, era o começo do fim dos fogões que queimavam lenha e carvão - no entanto, esses equipamentos já existiam há mais tempo em outros países, como mostra o anúncio francês abaixo, da década de 1920 - o texto quer dizer algo como "com o fogão a gás, seus pratos sempre ficarão bons".

  

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

1949: FARMÁCIAS DE PLANTÃO

A imprensa informava quais farmácias estariam de plantão  no domingo, 27 de março de 1949. 

Naquela época, não existiam tantas farmácias como hoje, e a Prefeitura fazia uma escala, obrigando a que algumas delas abrissem aos domingos e facultando às outras abrirem. 

É  interessante notar que das farmácias citadas, quase  todas não existem mais - há ainda em nossa cidade uma Drogaria Catedral, mas não sabemos se é o mesmo estabelecimento que existia em 1949. 

domingo, 9 de dezembro de 2018

A JUSTIÇA ERA (E AINDA É) LENTA.....

Em junho de 1873, Joaquim Antonio Fernandes relatava em anúncio publicado na Gazeta de Campinas que, em fevereiro daquele ano, requerera o Juiz Municipal de nossa cidade a emissão de uma certidão relativa a um processo que movera.

No anúncio dizia que ainda não conseguira a certidão, pois o escrivão responsável "alegava serviços" e não emitia o documento. 

Pelo jeito, esse estado de coisas é bem antigo...




quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

NAZISTAS EM JUNDIAÍ


A imprensa da capital (Folha da Manhã) noticiou em novembro de 1935 a realização de um baile no Grêmio CP, promovido por um certo clube Germânia.


Antes do início do baile houve uma "sessão comemorativa", onde foi cantado nosso Hino Nacional e o hino do partido nazista, além de canções alemãs. Em seguida, ouviu-se um programa de rádio sendo transmitido diretamente de Berlim.

Estava presente o prefeito da cidade (Antenor Soares Gandra), que foi saudado por Carlos Cordts, falando em nome do Germânia. 

Esse parece não ter sido um evento isolado. Quando o Brasil estava prestes a entrar em guerra com a Alemanha, a polícia intensificou as investigações contra os nazistas. Nesse processo, foram apreendidos documentos, como o folheto que aparece ao lado, que era um convite para uma reunião em 1934, que iria realizar-se no mesmo Grêmio CP.

Seria interessante sabermos o que aconteceu com o clube, seus associados e com os nazistas jundiaienses quando o Brasil entrou na guerra contra os alemães e contribuiu para a sua derrota, inclusive com a 148ª Divisão alemã rendendo-se aos brasileiros na Itália, como mostra a foto abaixo.










OS TRENS DA PAULISTA E O FILÉ ARCESP

Trabalhando em São Paulo desde 1971, ainda me recordo quando os trens ainda eram um excelente meio de transporte entre a capital e nossa cidade - já mencionamos isso em post anterior falando das "litorinas". 
O carro restaurante preparando-se para deixar a Estação da Luz 

Mas hoje o tema é outro: os trens de longo curso da Paulista, que ligavam São Paulo às barrancas do rio Paraná; mais especificamente os carros restaurante que faziam parte desses trens - não vivemos essa época, mas houve tempo em que para ir a esses carros, era necessário o uso de paletó e gravata e retirar uma senha. 


Eles eram ideais para se tomar uma cervejinha (sempre gelada) e jantar, não dando trabalho em casa - naquela época, jantava-se cedo em Jundiaí. Esse jantar ia desde simples porções de fritas e queijos, até o que havia de mais sofisticado a bordo: o Filé ARCESP.


A senha
O consagrado jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão, natural de Araraquara, que muito viajou nos trens da Companhia Paulista, lembra o filé: "Era um bife muito grande, com tomate, cebola, e vinha acompanhado de arroz", descreve Loyola. "Até hoje lembro do aroma." 

O nome do prato homenageava passageiros muito frequentes: os viajantes, como eram chamados na época os representantes comerciais; o nome do prato, vem do nome da entidade que os reunia, a Associação dos Representantes Comerciais do Estado de São Paulo - ARCESP. 

A receita original se perdeu, mas das lembranças de viajantes é possível tentar reproduzi-la, aqui em versão para duas pessoas: 

Ingredientes: 
  • 2 bifes de 220 g de filé mignon 
  • 2 tomates para salada 
  • 1 cenoura 
  • 1 cebola 
  • 200 g de manteiga sem sal 
  • 50 g de ervilhas 
  • Sal e pimenta do reino moída na hora a gosto 

Preparo: 
  • Corte os tomates em cubos e retire todas as sementes. 
  • Fatie a cenoura na diagonal. 
  • Corte a cebola em rodelas. 
  • Tempere os filés com sal e pimenta do reino. 
  • Em uma frigideira, derreta metade da manteiga até borbulhar. Incline levemente a frigideira e coloque os filés na parte mais elevada. 
  • Deixe que o suco dos filés se incorpore à manteiga e mantenha-os no fogo até obter o ponto desejado. 
  • Em uma panela, cozinhe a cenoura até ficar ao dente. 
  • Separadamente, cozinhe as ervilhas. 
  • Quando os filés estiverem no ponto, retire-os da frigideira e reserve-os em lugar aquecido.
  • Coloque na frigideira a manteiga que sobrou, misturando-a ao suco dos filés. 
  • Junte a cebola e mexa bem. 
  • Disponha a cenoura, as ervilhas, os tomates e mantenha os vegetais ainda no fogo, até obterem uma boa coloração. Ajuste o sal, se necessário. 
  • Sirva os filés com os vegetais na manteiga,
    acompanhados por arroz branco. 

Preparado assim, assemelha-se ao original. Só não fica igual por falta de um ingrediente hoje impossível de encontrar: os trens da Companhia Paulista...


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O VEREADOR QUEIXAVA-SE DO SOM DOS ALTO-FALANTES


Em fevereiro de 1949 o Vereador Alberto da Costa pedia providências no sentido de que a empresa Alto Falante Rex diminuísse o volume dos equipamentos instalados na Praça Governado Pedro de Toledo e no Jardim Público (Praça Marechal Deodoro da Fonseca) - o som estaria abalando os nervos dos que passavam rela região.

O vereador recomendava que mais equipamentos fossem instalados, porém com o som em volume mais baixo, afim de não criar problemas para as pessoas que por ali andassem "refrescando suas ideias", passeando ou conversando com algum amigo. 

Em nossa cidade existiram diversas empresas desse tipo - eram uma espécie de emissoras de  rádio que divulgavam músicas, notícias e anúncios através de alto-falantes instalados em postes ou janelas de prédios. 

Alberto da Costa, nascido no Rio de Janeiro, ao perder a mãe ainda criança, veio viver em nossa cidade com seus tios. Vereador por 16 anos, apresentou alguns projetos exóticos, como aquele que propunha a construção de um túnel ligando a Vila Rami ao bairro de Santa Clara, visando evitar acidentes no cruzamento da Via Anhanguera. Pretendia também proibir a malhação dos Judas, e "namoros avançados"  Envolveu-se também em conflito com o então vereador Omair Zomignani.

Formado em Contabilidade pelo então Ginásio Rosa, Costa foi funcionário da Cia. Paulista durante praticamente toda sua vida e pertencia aos Vicentinos, tendo, nessa qualidade trabalhado muito pela implantação da Cidade Vicentina, à época chamada “Vila dos Pobres” - não era apenas uma pessoa com ideias exóticas...  

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

DOCES LEMBRANÇAS: O RESTAURANTE DAS CARPAS

A Chácara das Carpas foi durante muito tempo o restaurante mais elegante de Jundiaí. De propriedade do italiano Giandomenico Buccianti, abrigava reuniões dos clubes de serviço, recebia visitas ilustres, casamentos etc. 

Havia em seu terreno uma fonte de água mineral, que era engarrafada - a imagem acima mostra o rótulo das garrafas. Uma notícia da Folha da Manhã, de fevereiro de 1945, falava da água e relatava planos de Buccianti para construir um hotel no local, o que acabou não acontecendo. 

O restaurante fechou logo após a morte de Buccianti; outros restaurantes usam ou usaram o nome Carpas, mas nunca chegaram perto do original, quer em qualidade, quer em charme. Era tão famoso que deu nome ao bairro onde se situava, o Jardim das Carpas. 
O prédio foi demolido, e dele só restam lembranças, como as das fotos abaixo, do acervo do Prof. Maurício Ferreira: inicialmente, o restaurante ainda em funcionamento e depois já fechado, além de uma vista do lago, obtida a partir da residência de Giandomenico, que ficava no alto da propriedade, atrás do restaurante propriamente dito.



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

O PROFESSOR NELSON FOOT, UM JUNDIAIENSE ILUSTRE

Nelson Foot nasceu em nossa cidade no dia 29 de maio de 1908,   filho de pais ingleses, Alfred Foot e Amy Tinson Foot;  foi professor, filólogo, historiador, articulista e poeta.

Na infância cursou o Ginásio José Bonifácio, localizado na esquina das ruas Prudente de Moraes e Cel. Siqueira de Moraes, e pertencente ao professor Giácomo Ítria. Posteriormente estudou no Colégio D. Pedro II, localizado na rua do Rosário no local onde depois foi construído o  Grande Hotel; essa escola era de propriedade do professor João Luiz de Campos.

Autodidata, dotado de grande cultura, Nelson Foot trabalhou em muitas escolas: na Escola Normal de Santa Rita do Passa Quatro foi diretor além de lecionar latim, português e inglês. Em Jundiaí foi professor de português e de inglês na Escola de Comércio Prof. Luiz Rosa, e de latim, inglês e francês em colégio da rede estadual. 

Mas na área educacional sua maior obra foi o SENAI, que dirigiu desde sua implantação em 1944 até 1969, quando foi sucedido por outro ilustre professor: Waldemir Savoy. Trabalhou também na Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Participou intensamente da vida cultural de nossa cidade, escrevendo, organizando eventos etc. A foto ao lado mostra-o em jantar em homenagem ao Dr. José Romeiro Pereira, de quem já falamos em outro post - o Prof. Foot é o primeiro à direita. Lutou pela instalação em nossa cidade de instituições como a Faculdade de Medicina de Jundiaí,  Escola Técnica Estadual Arquiteto Vasco Antonio Venchiarutti e Museu Histórico e Cultural.

Faleceu em em 20 de janeiro de 1984; seu nome foi dado à Biblioteca Municipal que hoje funciona  no Complexo Argos. 


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

UM POUCO SOBRE A ARGOS


A Argos foi uma das maiores e mais famosas indústrias têxteis de Jundiaí e do Brasil.


Este anúncio, publicado em 1956 no jornal "O Estado de S. Paulo" falava dos brins, cáquis e gabardines fabricados pela empresa - durante muitos anos, foi um grande fornecedor de tecidos para a confecção de uniformes do Exército.

Fundada em 1913,    empresa é um dos grandes marcos no desenvolvimento industrial do estado de São Paulo na primeira metade do Século XX.   Foi a maior empregadora de Jundiaí até a década de 1930, e promoveu intenso movimento de urbanização no bairro da Vila Arens, atraindo moradores, comércio e outras indústrias

No início da década de 1980, a empresa, que vinha decaindo em função de mudanças no mercado e na tecnologia,  além de ter problemas administrativos, acabou fechando suas portas.  

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A CAPOEIRA SERVIA DE "PALCO PARA ATOS INCONFESSÁVEIS"!


Em sessão da Câmara Municipal acontecida em outubro de 1956, o vereador Carlos Gomes Ribeiro indicava a necessidade de que fosse roçada uma capoeira de caraguatá situada na Rua Senador Bento Pereira Bueno, na Vila Progresso.   

A providência era necessária porque, além de enfeiar a rua, a capoeira servia de "palco para atos inconfessáveis de vagabundos", causando aos moradores "situações vexatórias". 

caraguatá  é uma planta da família das bromélias, de folhas compridas com espinhos nas bordas; resta saber se esses espinhos não atrapalhavam a prática dos  atos inconfessáveis apontados pelo vereador. 

Carlos Gomes Ribeiro era ferroviário (Santos a Jundiaí) e foi vereador de 1956 a 1972, tendo pertencido sucessivamente ao PSB, MDB e Arena. Foi também um líder sindical. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

DE BARCO, DA PONTE A MONTE SERRAT

Em requerimento de 1952, o então vereador Oswaldo Bárbaro (abaixo, em foto da época) propunha que a Câmara registrasse em ata de sessão um voto de congratulações a um grupo de jovens que em 15 de agosto daquele ano descera o Rio Jundiai em três barcos, objetivando levar as saudações do povo do bairro da Ponte aos moradores do bairro de Monte Serrat, hoje Itupeva. 

Na linguagem peculiar da época, o fato era chamado de "extraordinário feito", que era "acaroçoado" (incentivado) pela Câmara... 

Ficamos curiosos para saber como voltaram e como trouxeram os barcos; certamente não remaram rio acima...


domingo, 4 de novembro de 2018

1950: JUNDIAÍ SEM ANALFABETOS?

A Folha da Manhã de 11 de fevereiro de 1950 trazia matéria informando que Jundiaí era o primeiro município do Brasil sem analfabetos. 

O Prof. Guelli discursando em 1942
Havia uma ressalva: o delegado de ensino de nossa região, Prof. Oscar Augusto Guelli dizia que talvez houvesse "um pequeno número de iletrados adultos disseminados pelos recantos do município, inacessíveis à ação dos cursos de ensino supletivo".

Era uma boa notícia, mas hoje, quase 70 anos depois, ainda temos em nossa região uma legião de analfabetos funcionais, pessoas que conseguem balbuciar as silabas de um texto, sem atinar com seu conteúdo como um todo. Há mais gente ainda que desconhece os conceitos básicos de aritmética.

Essas pessoas estão sendo rapidamente postas à margem do desenvolvimento, incapazes de se adaptarem as exigências do mundo moderno, simbolizadas pela 4ª Revolução Industrial - neste link, trazemos alguns conceitos sobre o assunto e uma entrevista em que expressamos nossas preocupações sobre o tema. 

Tudo isso deve ser motivo de muita preocupação por parte daqueles que pensam nosso futuro. 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

JUNDIAÍ JÁ TEVE UMA SOCIEDADE HÍPICA


A Folha da Manhã noticiava em 14 de abril de 1946 que fora eleita a nova diretoria da Sociedade Hípica de Jundiaí, formada por pessoas de relevo na sociedade local. 

A nota dizia que a entidade iria realizar uma prova de "caça à raposa", reunindo seus associados. Na Inglaterra do século XIX, a caça à raposa era um esporte de elite: acompanhados por cães, nobres perseguiam raposas com seus cavalos. Nessa missão de captura, o conjunto saltava distintos tipos de obstáculos naturais: troncos, riachos, cercas vivas etc.
 
Mais tarde,  foram criados  circuitos com obstáculos que reproduziam as caçadas, o que existe até hoje, sem as raposas, evidentemente. 

Não conseguimos encontrar qualquer outra notícia a respeito da entidade, embora exista hoje em nossa cidade uma instituição chamada "Hípica Jundiaí", voltada para a prática de esportes equestres, aulas e manutenção e comércio de cavalos - certamente não tem ligação com a entidade objeto da notícia de 1946  .  


domingo, 28 de outubro de 2018

CRUELDADE: CARROCEIRO MATA ANIMAL

A Folha da Manhã de 25 de fevereiro de 1930 trazia uma notícia acerca de crueldade com animais. 

Em Botujurú, bairro de Campo Limpo Paulista e à época pertencente a Jundiaí, Benedicto de Oliveira conduzia uma carroça. Irritado com o desempenho dos animais em uma subida, passou a agredir-los, chegando a matar um deles com uma pancada na cabeça - o desvairado carroceiro ainda mordeu a orelha do animal e acabou sendo preso. 

O animal era de propriedade de seu patrão Biagio Marchetti, um cidadão proeminente na região; valia  cerca de um conto e quinhentos mil réis, algo como 30 mil reais de hoje, em um calculo muito grosseiro, levando-se em conta os preços dos jornais na época (200 réis) e na atualidade (4 reais).

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A ELETRIFICAÇÃO DA COMPANHIA PAULISTA - UM MARCO EM NOSSA HISTÓRIA

Dois símbolos marcaram de forma indelével o nível de excelência da Paulista: seus  trens de luxo azuis e suas locomotivas elétricas, em especial a imponente V8, com suas linhas aerodinâmicas. 

Era um conjunto marcado pela rapidez, conforto e pontualidade. Nunca mais será possível viajar ao interior contando com a comodidade de carros-restaurante, dormitórios, poltronas giratórias individuais...

A Companhia Paulista foi a primeira grande ferrovia brasileira  que eletrificou suas linhas, ainda na década de 1920, num brilhante trabalho do  engenheiro Francisco de Monlevade,  que implantou um sistema que prestou bons serviços por mais de 75 anos - um recorde que demorará a ser quebrado, se é que um dia virá a ser. É oportuno lembrar que durante esse trabalho, teve morte trágica o engenheiro Leonardo Cavalcanti

Os estudos para a eletrificação da C.P. se iniciaram em 1916, quando o Brasil era um país periférico, agrário e sem praticamente nenhuma tradição técnica. A implantação de um sistema sofisticado como esse não incluía apenas a compra e instalação de equipamentos caros e sofisticados para a época, como também implicou no treinamento de maquinistas e empregados pela própria companhia. 

Não haviam escolas, faculdades e universidades que pudessem lidar com o tema no Brasil. E mesmo os técnicos da General Electric e da Westinghouse que aqui vieram acompanhar a implantação do novo sistema de tração, puderam aprender bastante com a experiência da Paulista com esta nova tecnologia.

Após a implantação extraordinariamente bem-sucedida do programa de eletrificação entre Jundiaí e Campinas, a partir de 1922, ele foi paulatinamente estendido ao longo das linhas de bitola larga da Paulista, alcançando Rincão, na linha de Barretos, em 1928. Trinta anos após sua implantação, em 1954, ele atingiu a sua extensão máxima, alcançando Cabrália Paulista, na linha de Bauru.

A foto ao lado mostra a primeira locomotiva elétrica da Paulista; fabricada pela Baldwin Locomotive Works (componentes mecânicos) e Westinghouse Electric Corporation (componentes elétricos), tinha  1627 hp e foi desativada provavelmente na década de 1970.

Infelizmente a grave crise econômica que se abateu sobre as ferrovias após a década de 1950 impediu o prolongamento da eletrificação além desses pontos. Ainda assim, o sucesso da eletrificação foi suficiente para mantê-la funcionando por várias décadas a fio. 

Em 1995, contudo, a administração da Ferrovia Paulista - FEPASA, empresa estatal que havia absorvido a Companhia Paulista em 1971, decidiu que a manutenção da eletrificação era técnica e economicamente inviável, dada a obsolescência do sistema.

Essa decisão administrativa acabou sendo revogada e a eletrificação voltou a funcionar em 1996, ainda que em caráter bastante precário. O golpe de misericórdia veio em 1999, com a privatização da FEPASA: a empresa que assumiu as linhas não se interessou em manter a tração elétrica. O sucateamento da rede elétrica se deu entre o fim de 1999 e início de 2000. 

Um final realmente inglório para uma conquista tecnológica espetacular conquistada num país ainda agrário e inculto.


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

EM 1934, A PROMESSA ERA DE QUE TRENS LIGARIAM JUNDIAÍ A SÃO PAULO EM 30 MINUTOS!

São constantes as promessas quanto ao reestabelecimento de um serviço decente de transporte de passageiros entre São Paulo e nossa cidade. 

Já se falou em trem bala, e agora fala-se no Trem Intercidades, que chegaria até Americana. 

Essas promessas levam-nos adotar uma postura cética, na linha do "só acredito quando começar a funcionar", ainda mais que há pelo menos 84 anos já se falava no assunto - pelo menos é o que dizia o jornal "O Globo", de 25 de janeiro de 1934 (!). 

A matéria dizia que a "Ingleza", depois Santos a Jundiaí e agora CPTM havia encomendado novos trens que seriam empregados  na linha da empresa, sendo que o trajeto entre Jundiaí e São Paulo, que era feito em uma hora, passaria a ser feito em 30 minutos. 

Como escrevemos em outro post, quando a ferrovia começou a operar entre Jundiaí em São Paulo, em 1867, o tempo gasto era de duas horas; hoje, além de não haver ligação direta, esse tempo está entre duas horas e duas horas e meia...