sexta-feira, 30 de setembro de 2016

EM JUNDIAÍ, DANÇAVA-SE MUITO

Os bailes tinham no passado uma importância muito maior do que na atualidade. 

Eram das poucas ocasiões em que jovens podiam divertir-se , namorar, sem uma supervisão mais estrita de seus pais; além disso, eventos de outras espécies eram raros, pouquíssimos tinham automóveis, telefones ou condições de viajar - assim, o baile era "o" evento.

Amostra dessa importância era a nota publicada na Folha da Manhã de 31 de dezembro de 1933, anunciando cinco bailes: 

- Na sede do E. C. Amazonas, ocorreria um "sarau dansante", comemorando o Ano Novo; 

- Do São João, comemorando a posse da nova diretoria; 

- Da Banda Paulista, um "vesperal" no dia 1º de janeiro, 19 horas, comemorando a chegada do Ano Novo; 

- A nova diretoria do Casino Jundiahyense (depois Clube Jundiaiense), ofereceria a seus associados uma "soirée dansante", e, finalmente, 

- A Sociedade Musical Ítalo Brasileira (a Banda) ofereceria uma "partida dansante", também comemorando a chegada do Ano Novo. 

Ficam algumas curiosidades: onde seria o baile da Banda Paulista? Provavelmente no Grêmio. E o do Amazonas? Não conseguimos mais informações sobre esse clube, exceto que em sua sede seria realizada uma reunião para discutir assuntos ligados à construção da Igreja da Barreira, o que talvez nos permita concluir que o clube se localizasse naquela região.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

BANHISTAS (NUS) PRESOS NAS PITANGUEIRAS

A Folha da Manhã de 8 de maio de 1932 noticiou a prisão de quatro marmanjos que costumavam nadar nus no Rio Guapeva, nas proximidades do bairro das Pitangueiras, em nossa cidade.


Acreditamos que a "praia" ficava na região por onde hoje passa a avenida Odil de Campos Saes, pois o jornal dizia que era um ponto de passagem das funcionárias das fábricas de tecidos da Vila Arens (Argos, São Bento, Milani, Japy), o que talvez entusiasmasse os folgados. 

A observar que era maio, e nessa época o clima em nossa cidade não é muito propício a banhos de rio. 

Levados ao xadrez, foram soltos após pagarem "a carceragem" - o que seria isso? Algo que muitos propõem hoje, com os presos pagando as despesas que geram? Ou seria uma espécie de fiança? 

Ignora-se também se a lição serviu aos banhistas...






sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O CAMPEONATO DE BASQUETE DE NOSSA CIDADE, O CARAMURU (O TIME DO QUARTEL) E A CHEGADA DO ESPORTE AO BRASIL VIA MACKENZIE

Jundiaí já teve um campeonato de basquete - sob esse ponto de vista, na década de 1930, esse esporte estava muito mais avançado do que atualmente. Havia em nossa cidade um time formado por militares do Exército,  o Caramuru FBC, que era filiado à Liga Jundiahyense de Bola ao Cesto (o esporte não era chamado "basquete"). 

Recorrendo à pesquisa em hemerotecas (arquivos de jornais), pudemos levantar algumas informações acerca do tema, dentre as quais:

- 6.6.31: jogando pelo campeonato da cidade,  a Esportiva venceu o Caramuru por 18 a 15 - nos segundos quadros, a Esportiva também venceu por 25 a 9. O jogo foi na quadra da Esportiva, localizada na então chamada "Chácara das Laranjeiras"

- 14.04.32: o Caramuru venceu um jogo amistoso contra o time da Esportiva. O curioso é que o jogo foi realizado no intervalo de um concerto que a Banda Paulista dava em homenagem ao 2º GAMth (hoje 12º GAC), unidade onde serviam os jogadores do Caramuru. 

- 4.4.33: foram realizados jogos amistosos na quadra da Esportiva: Esportiva x Ponte Preta (de Campinas) e Associação dos Empregados do Comércio x Caramuru. Após os jogos, encerrando a festa, houve uma "partida dansante" no Grêmio CP.

- 6.6.36: era uma 6ª feira, e a Folha noticiava que no domingo anterior o Caramuru perdera um jogo amistoso realizado em sua quadra, contra o ECE Penha; o placar foi 19 x 17 e nessa ocasião o Caramuru já era chamado EC Caramuru; a quadra ficava no quartel, no centro da cidade.

- 3.5.46: o 2º GADo (2º Grupo de Artilharia de Dorso, que sucedeu ao 2º Grupo de Artilharia de Montanha), organizou uma "parada esportiva" - uma serie de competições de diversas modalidades. aberta por um desfile. No basquete, além do Caramuru, participariam os times da Esportiva, Grêmio CP e Associação dos Empregados do Comércio, disputando o Torneio Início do campeonato daquele ano, que seria patrocinado pelo jornal "Folha da Manhã".

É interessante como o esporte mudou, desde nome até a contagem dos jogos. O basquete foi criado em   1891,  nos Estados Unidos, quando o professor de Educação Física James Naismith, da Associação Cristã de Moços, teve a ideia de criar um esporte que pudesse ser praticado em uma quadra fechada, por que o inverno rigoroso impedia a prática dos esportes ao ar livre. 


A primeira equipe do Mackenzie
No Brasil,  a prática do basquete teve início no Mackenzie, em 1896, como professor americano Augusto Shaw. O time do então Mackenzie College participou do primeiro jogo do campeonato paulista, em 1902, vencendo por  2 a 1 (!) o time do Germânia (atual clube Pinheiros),  
Oscar


Hoje, a Universidade Presbiteriana Mackenzie mantém a tradição, formando atletas e se sobressaindo nos esportes - um de seus alunos e atleta foi Oscar Schmidt, o Mão Santa, que conta uma história interessante: ele e outro aluno, Pelezinho, disputavam pelo Mack o torneio da FUPE (Federação Universitária Paulista de Esportes), competição  entre as faculdades paulistas). 

O time iria jogar a partida semifinal, mas só os dois haviam chegado até o horário de inicio do jogo - Oscar já era um jogador de seleção, o fato ocorreu ao redor de 1981. Conta Oscar:  "Não pensamos duas vezes, fomos para a arquibancada e perguntamos se tinha alguém com a carteirinha do Mackenzie. Arranjamos três e fomos jogar". Os escolhidos nunca tinham visto basquete na vida, mas deram para o gasto e evitaram o W.O. "Pedimos para ficarem com os braços levantados e correrem, se conseguissem alguma coisa era lucro." Resumindo a história, o Mackenzie venceu a partida por 4 pontos e, na final, levou o título do torneio...

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

UMA HISTÓRIA MUITO LOUCA OU, SERIA CÔMICO SE NÃO FOSSE TRÁGICO..




O Hospital Psiquiátrico do Juqueri é uma das mais antigas e maiores colônias psiquiátricas do Brasil e está localizado em Franco da Rocha (antigamente chamada Juqueri).

Seguindo projeto de Ramos de Azevedo, sua construção foi iniciada em 1895, e  deveria ser uma instituição modelar para tratamento de doenças mentais; porém, por diversos motivos, o Juqueri acabou tornando-se um depósito de gente, algo profundamente desumano, que contrariava as ideias de seu fundador, o psiquiatra Francisco Franco da Rocha. 

Com milhares de internados, era impossível impedir a saída dos pacientes, que com frequência vinham para nossa cidade, de trem ou mesmo a pé, pela Estrada Velha de São Paulo. 

A Folha da Manhã de 14 de março de 1926 conta-nos uma história da qual são protagonistas cinco desses infelizes: deixaram o Juqueri e vieram para nossa cidade, hospedando-se no Hotel Guarany (não temos mais dados sobre esse estabelecimento).

Ali chegando, quatro deles comeram e foram dormir. O quinto,porém, passou a refletir sobre o assunto e concluiu que, como não tinham dinheiro, acabariam tendo problemas... - assim, foi embora de mansinho, ou, conforme o jornal, "deu às de Villa Diogo"...

Quanto aos demais, foram descobertos pelos guardas do Juqueri, que os conduziram de volta ao hospício...

Temos notícia de um fato ocorrido talvez nos anos 1950/1960: um fugitivo do Juqueri, abordou a sentinela do então 2º GO 155 postada à entrada da Vila Militar, dizendo querer falar com seu filho, que servia na unidade (o que não era verdade). O fugitivo, armado com uma espingarda, atirou em um sargento que fora em apoio à sentinela, sem atingi-lo; o sargento revidou e feriu o fugitivo na perna.   


terça-feira, 13 de setembro de 2016

O COMANDANTE VIDELMO MUNHOZ -VOOU PARA OS HOMENS, VOOU PARA O ETERNO

Placa no túmulo do Comandante Munhoz
No início da noite de 17 de setembro de 1951, o DC-3 PP-YPX da Real Aerovias, que fazia a rota Rio - São Paulo, caiu nas matas de Ubatubamirim, entre Parati e Ubatuba, tendo seus destroços sido localizados dois dias depois. 

A tripulação, em foto da "Folha da Manhã"
Seu comandante era o jundiaiense Videlmo Munhoz, que pereceu no acidente, assim como todos as demais nove pessoas que estavam a bordo. 

Dentre esses, outro jundiaiense, Roberto Lessa, estudante do 4º ano de Direito do Largo São Francisco, Harry Morgen, jogador de futebol (Guarani de Campinas) e Sallisbury Galeão Coutinho, um dos mais importantes jornalistas da época. O Cmte. Munhoz está sepultado em nossa cidade - placa em seu túmulo relembra a tragédia.

Cockpit de um DC-3
Segundo notícias da época, o avião foi totalmente destruído, tendo sido possível identificar o corpo do comandante apenas pelo relógio de pulso que usava.

Não foi possível determinar as causas da queda; o mau tempo talvez possa ser uma explicação, pois às 18:30 (quando o PP YPX já voava), a rota foi fechada por essa razão. 

Os aviões da época não dispunham de radares meteorológicos, que  permitem que tempestades seja evitadas; assim, uma das hipóteses é que o avião tenha entrado em nuvens do tipo cúmulus-nimbus (CBs) embutidas na névoa; esses cúmulus geram turbulências extremamente severas, que podem ter levado à perda de controle do DC-3.

Videlmo recebeu seu brevet no Aeroclube de Jundiaí em 1943; sempre foi um apaixonado pela aviação - morreu fazendo o que gostava; dá nome a uma rua do bairro do Anhangabaú.

O PP-YPX foi fabricado em 1943, para as forças armadas americanas. Até chegar à Real, pertenceu a diversas empresas, inclusive tendo se acidentado em 1949 ao pousar em Iguape, em missão de socorro às vítimas de outro acidente aéreo.    


DC-3 similar ao comandado por Munhoz

domingo, 4 de setembro de 2016

1935: O CAMPEONATO DE XADREZ DE NOSSA CIDADE



No final do ano de 1935, encerrou-se em nossa cidade o campeonato de xadrez organizado   pelo "Núcleo Enxadrístico Jundiahyense" e  do qual participaram jogadores ligados à entidade organizadora e à "Associação do Empregados no Commercio".

O vencedor do torneio foi Mario Tobias de Aguiar; dentre os participantes, algumas pessoas muito conhecidas em nossa cidade, como o vice campeão, o médico  Nicolino de Lucca, que dá nome à maior praça de esportes de nossa cidade, o Bolão; o Professor Lázaro de Miranda Duarte, além de membros de famílias tradicionais de nossa cidade, como Carletti, Taddei, Faggiano, Avallone, Wood e Giollo. Tudo isso é foi relatado pela "Folha da Manhã", em sua edição de 21 de novembro daquele ano.  

Dentro do verdadeiro espírito esportivo, todos os participantes receberam prêmios, medalhas e objetos oferecidos por estabelecimentos comerciais de nossa cidade.

Relembrar esses estabelecimentos é uma volta à infância: a Casa Eichemberger ofereceu uma cigarreira de prata; a Casa Independência, um chapéu; a Casa Trevo, uma camisa de seda e a Casa Rappa, ofereceu uma fruteira. 

Acerca desta última, vale lembrar o que escreveu o saudoso historiador Aldo Cipolato: “A velha Casa Rappa também nos servia de casa bancária. Jundiaí, naquela época, não possuía as agências bancárias que hoje possui. Ali guardava-se e tomava-se dinheiro, a bons juros. Não se exigia outras coisas senão honradez e seriedade, a valerem mais que os avais, endossos e outras exigências de hoje. Para Sperandio Rappa, moral era documento”.

Curiosamente, todos estes estabelecimentos   ficavam na Rua Barão de Jundiaí, o que mostra como nossa cidade era pequena naquela época. 

Quanto ao xadrez, existe (ou existiu) em nossa cidade o "Clube de Xadrez XIII de Agosto", acerca do qual não conseguimos maiores informações.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

COMEMORANDO O 7 DE SETEMBRO EM 1933

Em 1933, o 7 de setembro foi comemorado em nossa cidade: na véspera, uma 4ª feira, aconteceu um baile no Grêmio CP. Na tarde do dia 7, no "Jardim Público", tocou a Banda Paulista - o evento iniciou-se com a execução do Hino Nacional, que foi acompanhado pela "banda de cornetas e tambores" do 2º Grupo de Artilharia de Dorso (atual 12º GAC) .


domingo, 28 de agosto de 2016

AS PROEZAS DO SARGENTO

Em meados dos anos 1920, não havia unidade do Exército sediada em Jundiaí. Foi uma década agitada: a Revolta do Forte de Copacabana (1922), a Revolução de 1924 e outros movimentos políticos exigiram que o então 2° Grupo de Artilharia de Montanha (hoje 12º GAC), ficasse fora de nossa cidade por algum tempo.

Nessa ocasião, o antigo quartel da Rua do Rosário passou a ser ocupado pelo destacamento da Força Pública responsável pelo policiamento da cidade. Esse destacamento, ainda como consequência dos acontecimentos  políticos, especialmente da Revolução de 1924, era comandando por um certo Antonio (ou André) Andrade, 1º sargento do Exército.

Como noticiou a Folha da Manhã de 30 de outubro de 1926, o quartel era enorme para abrigar os vinte soldados da Força que
O velho quartel
compunham o destacamento, o que despertou a "criatividade" do Sargento, que passou a retirar material do quartel (inclusive o madeirame) e despachar esse material para Santos, onde residia.

Ali, segundo o jornal, o material era recebido e utilizado para a construção de "uma confortável vivenda" para o Sargento e sua família - mas a "esperteza" foi detetada e um inquérito foi instaurado - seria interessante sabermos como a história terminou...   

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

PORCELANA SÃO PEDRO - PRODUZINDO ARTE EM JUNDIAÍ

Porcelana São Pedro, fundada em 14 de junho de 1944,  situava-se em área onde hoje ficam a loja da Coopercica e o conjunto residencial Parque das Flores, na região do Jardim Cica; ocupava uma área de 25.000 m2. com 3.000 m2 de área construída. O acesso a ela dava-se por uma pequena travessa da Rua Cica, chamada Arthur Germano Fehr, que aparece na foto acima. Tinha escritório em São Paulo, à Rua Barão de Itapetininga, 273 - 6o. andar. 

Seu diretor presidente era João Ferrara (que dá nome a uma rua do bairro); os demais diretores,   Agadir Lemes Ferrara, Felício Paulo dos Santos e Vicente João dos Santos.

Além de jogos de chá e café e outros utensílios domésticos, fabricava peças decorativas, muitas das quais pintadas à mão, com filetes de ouro e que hoje são cobiçadas por colecionadores.

O jornal "O Correio Paulistano", em sua edição de 18 de junho de 1948 trazia uma matéria  relatando a visita de um de seus repórteres à São Pedro, que dizia "Antes de penetrar na sala-exposição, pensávamos encontrar produtos rústicos e comuns, desses artigos que não passam de imitação grotesca de verdadeiros  trabalhos   de boa qualidade e arte.

Não foi decepção o que vimos. Foi uma verdadeira revelação. Sentimo-nos como se estivéssemos diante duma vitrina de loja de objetos de artes de rua elegante da capital.



Os nossos olhares desfilavam diante dos aparelhos de chá e de café decorados e com frisos de ouro e decalco. Jogos de salada e saladeiras artísticos. Vasos finos e pintados com flores de tons diversos.


E dos "bibelots" o que dizer?  Esses "bibelots" que ornamentam todos os cantos
de casa de gosto. As formas mais variadas e os motivos mais interessantes, aves, cães, gatos, gansos, passarinhos, coelhos, elefantes, patos, anjinhos, cavaleiros, bébés, crianças, andaluzas com saia-balão e até Pierrots com suas violas.

Tudo em porcelana de boa qualidade. Tudo denota finura e ambiente agradável"

A confirmação do que disse o jornal está em página do site "Porcelana Brasil", que mostra algumas peças produzidas pela S. Pedro, mais uma indústria que se foi e deixou saudade.

domingo, 7 de agosto de 2016

UM CASO EXTRAORDINÁRIO ACONTECIDO NA "ZONA BAIXA" DE NOSSA CIDADE

Em uma noite de julho de 1931, dois indivíduos adentraram uma casa de tolerância (!) na "zona baixa" de nossa cidade (onde seria??? - ao que parece na rua Zacarias de Góes, à época chamada Adolfo Gordo). Ali pernoitaram. Mais tarde, um frequentador da casa deu o alarme: os dois seriam leprosos, que teriam sido vistos durante o dia andando pela cidade. 

À época, a lepra era uma doença temida (ainda é); seus portadores eram segregados do convívio social - no Brasil existia lei para que os portadores de lepra fossem "capturados" e obrigados a viver em leprosários, a exemplo do Hospital de Pirapitingui, situado entre Itu e Sorocaba.

Essa lei foi revogada em 1962, porém o retorno dos pacientes ao seu convívio social era extremamente difícil, face ao preconceito vigente. Na atualidade, a doença pode ser curada.

Refletindo a visão da época, a "Folha da Manhã" de 29 de julho de 1931 terminava o relato do fato recomendando que a polícia mandasse que as "decaídas" residentes no local fossem submetidas a um exame de sanidade. Muito triste... 


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O PARQUE INFANTIL DA PRAÇA DA BANDEIRA


A inauguração
O primeiro parque infantil de Jundiaí, situado onde hoje fica o Terminal Central (Praça da Bandeira), foi inaugurado em 14 de fevereiro de 1946 pelo Prefeito José Romeiro Pereira. 

Recebeu o nome de "Manoel Aníbal Marcondes", farmacêutico e também prefeito da cidade que foi o responsável pelo decreto de criação do parque  (1941), trabalhando em conjunto com a Profa. Judith Almeida Curado, que se tornou a primeira diretora, permanecendo no cargo até 1975. O Prefeito Manoel Aníbal Marcondes foi assassinado durante o seu mandato, em 18 de novembro de 1943 - narramos este fato em outro post.

A ideia inicial era construir o parque na  praça D. Pedro II, mas por esta estar rodeada de hospitais (São Vicente e atual Hospital Regional), decidiu-se construí-lo na Praça da Bandeira, o antigo Largo Santa Cruz, que por muitos anos servira como ponto de parada de tropeiros e bandeirantes que partiam em direção ao interior. 

O prédio principal
Tendo o Prefeito Manoel Aníbal Marcondes sido assassinado durante o seu mandato (18 de novembro de 1943), seu nome acabou sendo dado à instituição. Cercado por grandes figueiras, contava com excelentes instalações: no centro, havia um prédio  que abrigava a cozinha, sala de diretoria,
A piscina
vestiários, sala de brinquedos, salão para festas, um pequeno museu   e uma biblioteca com quase quinhentos livros, além dos espaços utilizados para atividades com as crianças. 


Na área externa, horta, piscina e espaços para atividades físicas e brincadeiras. Havia também assistência médica e odontológica

As crianças eram dividas em três grupos de acordo com a faixa etária: uma turma para os menores entre 3 e 6 anos, outra para os que tivessem entre 7 e 9 anos, e uma terceira para os que tivessem entre 10 e 13 anos. 

A Profª. Judith
Muitas pessoas viam o parque apenas  como um lugar onde as crianças ficavam apenas para dar sossego às mães, ignorando que ali, segundo matéria publicada pelo Diário de Jundiaí em 2 de junho de 1968, era um lugar onde as crianças "aprendem a ter disciplina. A obedecer e a atender a ordem dos mais velhos. Um parque infantil requer uma organização experiente, uma equipe de professoras e funcionárias capacitadas e especializadas, porque convenhamos, não é fácil lidar com criança".

Durante muitos Natais as instalações do parque foram cedidas à "Boa Semente", grupo que naquela época entregava brinquedos e outros presentes às famílias de crianças carentes. 

Mas tudo acabou:  na década de 1970, o Parque Infantil cedeu espaço espaço à Estação Rodoviária. As frondosas árvores foram cortadas, a estrutura quase toda demolida, sobrando apenas apenas os flamboyants plantados por Judith e seus alunos e algumas das velhas figueiras...

As fotos que ilustram o texto foram cedidas pelo Prof. Maurício Ferreira. 


sexta-feira, 29 de julho de 2016

UM CRIME MAL EXPLICADO EM BOTUJURU


As linhas da EF Santos a Jundiaí passam por um túnel de 590 metros de comprimento, situado entre a cidade de Francisco Morato (antigamente chamada Vila Bethlem) e o bairro de Botujurú, atualmente pertencente ao município de Campo Limpo Paulista

A estrada de ferro foi inaugurada em 1867, e o jornal Correio Paulistano narra um acontecimento terrível ocorrido na região: segundo o jornal,  um grupo mais de 30 portugueses emboscou 2 brasileiros; estes reagiram e mataram 3 dos portugueses, saindo os brasileiros apenas levemente feridos - uma história difícil de acreditar, levando em conta o tamanho dos dois grupos...

Note-se que quando as autoridades chegaram ao local, enterraram ali mesmo os mortos, pois pelo estado de decomposição dos corpos, não foi possível leva-los para o cemitério mais próximo. 

Os fatos ocorreram em 11 de janeiro de 1863 - seria interessante conhecer os motivos e os desdobramentos do caso. 

A foto mostra uma  "litorina"  entrando no túnel - esses trens já foram objeto de outro de nossos posts: "LITORINA: LIGANDO SÃO PAULO A CAMPINAS COM CONFORTO E SEGURANÇA" 


domingo, 24 de julho de 2016

WALDOMIRO LOBO DA COSTA - UM PREFEITO QUE FOI ALÉM DAS FRONTEIRAS DE NOSSA CIDADE

Waldomiro Lobo da Costa foi prefeito de nossa cidade de 1927 a 1930; exerceu inúmeros cargos públicos - foi deputado, presidente do Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo (1956-1958), etc. 

Como curiosidade, cabe dizer que em 1928, sob sua gestão, foi construído o muro na base do "Escadão" - 76 metros de comprimento por dois de altura; em 1929, foi feito  o projeto da escadaria e dos passeios pela inclinação do morro, bem  como do belvedere da parte superior, com vista para a Vila Arens. À época, o local era chamado "Morro do Grupo", numa referência ao então Grupo Escolar Cel. Siqueira de Moraes, situado nas proximidades.

Mas há um fato curioso e pouco conhecido a respeito de sua vida: foi condecorado pelo rei da Itália com a "Cruz de Cavaleiro da Ordem da Coroa", que lhe foi entregue em nossa cidade pelo cônsul geral da Itália em São Paulo, Serafino Mazzolini - a entrega ocorreu em maio de 1930. 

A entrega foi motivo para grandes festividades, segundo o "Correio Paulistano" de 14 de maio de 1930. Inicialmente, houve um grande jantar, presentes membros de famílias de destaque de nossa cidade: Queiroz Guimarães, Rappa, Traldi, De Vecchi, Gandra, Castilho, os doutores Samuel Martins e Domingos Anastácio e outras pessoas de destaque. 

O cardápio foi composto de diversos pratos e vinhos finos, ao final do qual Waldomiro ergueu um brinde ao cônsul e à sua mãe que o acompanhava. O cônsul, respondeu com "brilhante e comovida oração". Mais tarde, um baile no Grêmio CP, que se prolongou até a manhã seguinte; mesmo no baile, mais discursos aconteceram. 

No dia seguinte, o cônsul visitou o bairro do Traviu, tendo sido recebido na residência do (mais tarde) Comendador Antonio Carbonari com mais discursos e uma mesa de doces e champanhe.

Para o almoço, às 13 horas, houve  um banquete (70 talheres), desta vez nos salões do "Casino Jundiahyense". O serviço refinado, aos cuidados de Angelo Semenza, foi acompanhado pela musica do "Jazz" (banda) Oriental (de que já falamos em outro post) e seguido, como de praxe, por mais discursos.

A seguir, a parte mais interessante da visita: o grupo dirigiu-se para a sede do Fascio de nossa cidade - Fascio era o nome dado a um
grupo local de fascistas. Essa sede, segundo o jornal, ficava nos "altos do Polytheama" - seria o prédio do teatro? 

A seguir, no teatro propriamente dito, completamente lotado, aconteceu a entrega da condecoração. A solenidade foi abrilhantada pela Banda Ítalo-Brasileira (mais tarde União Brasileira), que executou os hinos nacionais do Brasil e da Itália e o hino "Fascistas". 

E mais discursos, do cônsul, de jornalista, do juiz de direito - até chegar-se ao homenageado, que entre outros elogios ao governo fascista de Mussolini, disse que "ao salvar a Itália das  terríveis consequências da invasão moscovita, havia salvado toda a civilização cristã"! Disse também que, com a alma de joelhos, queria depor um ósculo respeitoso nas mãos da velhinha que dera à Itália um filho do valor de Serafino Mazzolini, o Cônsul...

Encerrou-se a cerimônia com a Banda executando o Hino Nacional e a canção "Giovinezza", o hino do Partido Fascista.

E como o  pessoal gostava de festas: o cônsul partiu para São Paulo no trem das 19 horas, e às 21, Waldomiro, com a condecoração no peito, abria as comemorações do 22ª aniversário do Gabinete de Leitura Ruy Barbosa - mais um baile, que se prolongou até a madrugada, não sem antes um discurso de 40 minutos do orador da entidade, o juiz de direito Samuel Martins...

Quanto a Mazzolini, teve uma brilhante carreira diplomática, morrendo em 1945 aos 55 anos, vítima de diabetes, agravada pela falta de medicamentos provocada pela guerra. 

Ao saber de sua morte dele disse Mussolini: "era un collaboratore onesto, intelligente, buono e devoto, quale raramente ho avuto. Gli Esteri (Ministério de Relações Exteriores) perdono un Capo insostituibile e l'Italia un patriota esemplare".

quinta-feira, 21 de julho de 2016

ALBA ROSSA - UM JORNAL ANARQUISTA

O primeiro número do  semanário "Alba Rossa" (Aurora Vermelha) circulou em 10 de maio de 1919.

Escrito em italiano  era voltado ao grande número de italianos recém chegados ao Brasil; seus editores apresentavam-se como anarquistas, defendendo os ideais comunistas que estavam sendo implantados pela Revolução Soviética. Ironicamente, comunistas e anarquistas tornaram-se inimigos mortais (literalmente) depois de alguns anos - na Guerra Civil espanhola dedicaram-se alegremente a massacrar uns aos outros, facilitando a vitória das tropas de Franco.

O jornal era dirigido por Silvio Antonelli, um operário da construção civil; o recorte ao lado, da primeira edição, relaciona o grupo que editava o jornal e dá uma ideia do tom da publicação.

O jornal trazia comentários acerca de uma greve que estava acontecendo em várias partes do país - a greve continuava em Sorocaba com a ocorrência de conflitos entre grevistas e polícia. Conforme recorte abaixo, o jornal dizia que em Jundiaí, Campinas e Poços de Caldas a greve continuava de forma mais pacífica - com fina ironia, afirmava que "a polícia, ao que parece, não se mostrava à altura da situação. Ainda não havia matado nenhum menino..."!

domingo, 3 de julho de 2016

NEPOTISMO, PRAGA ANTIGA

Nepotismo (do latim nepos, neto ou descendente) é o termo utilizado para designar o favorecimento de parentes  ou amigos em detrimento de pessoas mais qualificadas, especialmente no que diz respeito à nomeação ou promoções em uma organização qualquer.

É uma praga antiga, inclusive no Brasil.  Logo após chegar aqui em 1500, Pero Vaz de Caminha, que era o escrivão da frota de Cabral, teria embutido no relatório da viagem que fez ao rei de Portugal, um pedido para que seu genro recebesse um cargo público. 

O jornal "Correio Paulistano", em sua edição de 17 de dezembro de 1875, publica uma carta assinada por um "jundiahyano na côrte", provavelmente alguém de nossa cidade que ali vivia, denunciando um ato de nepotismo - a carta era destinada ao Imperador, através do Ministro da Justiça. 

Dizia a carta que o juiz de Santos,  Porchat de Assis, esperava brevemente ser nomeado para nossa cidade, pois um certo Amaral, que ocupava esse cargo em nossa cidade, esperava ser transferido para o Rio de Janeiro.

O juiz Porchat era sobrinho do conselheiro Duarte de Azevedo, ex ministro da Justiça, que "nipoticamente" trabalhava pela transferência do sobrinho para Jundiaí. 

Em sua carta. nosso conterrâneo reclamava do fato de estarem sendo preteridos outros juízes mais antigos, pois Porchat tinha 20 e poucos anos de idade e acabara de completar seu primeiro quatriênio (provavelmente, período de quatro anos como juiz). 

Concluía a carta a afirmação que o pessoal da terra não aceitaria a nomeação de bom grado. 

Como se disse, praga antiga e resistente.

terça-feira, 28 de junho de 2016

QUILOMBOS EM JUNDIAÍ

Em dissertação de mestrado apresentada à UFRJ, Deborah da Costa Fontenelle discute o tema "quilombos", e recorrendo ao jornal Correio de Campinas, narra fatos ocorridos em Itupeva, à época parte de Jundiaí. Na medida do possível, conservamos as expressões da época constantes do texto:

"Há um quilombo do escravos fugidos na fazenda denominada S. Simão, no districto de Jundiahy, distante umas 2 ½ léguas da estação de Itupeva, da qual é administrador o Sr. Francisco Bueno. 

O ataque a um quilombo
Aos 29 do passado (junho de 1885) o Sr. Bueno ajuntou uma força de 15 paisanos e assaltou o  quilombo, resultando d’este assalto a morte de um dos paisanos e a retirada dos mais, que deixaram o cadáver de seu companheiro nas mãos dos aquilombados. 

O Sr. Bueno communicou o occorrido ao delegado de policia de Jundiahy, por telegramma e pediu uma força para desalojar os aquilombados. O delegado respondeu-lhe immediatamente que não tinha a força precisa disponível e que não remettesse o cadáver para Jundiahy com as testemunhas do facto, e telegraphou ao chefe de policia, pedindo um destacamento para servir no caso. 

Este veiu no dia 30 do passado em numero de 15 praças, commandadas por um tenente, e desembarcou em Jundiahy. No mesmo dia o delegado fez marchar o destacamento para a scena do distúrbio. 

Chegado o destacamento ao sitio, o commandante fez o reconhecimento da situação das cousas, e communicou ao delegado que os escravos estavam entricheirados na matta e que não podia subjugal-os sem empregar os meios mais enérgicos. 

O delegado respondeu que fizesse uso das armas, mas o commandante, vendo que havia grande desproporção entre o numero das praças e dos fugidos, e que estes tinham uma immensa vantagem do terreno, julgou mais prudente não atacar o quilombo sem um reforço de praças, e voltou para Jundiahy, com o destacamento, hoje (2 de julho) de tarde. 

Diz o delegado que elle espera a chegada de um reforço sufficiente, de S. Paulo, amanhã, e fará seguir a força, assim augmentada, de novo á scena do distúrbio. 

A gente da visinhança do quilombo assevera que há 43 dos fugidos, e que o cadáver do infeliz paizano, que morreu no conflicto de 29 do passado, está lá a pequena distancia do quilombo, espetado n’um mastro para a admoestação dos temerários. "

Capitão do Mato - gravura de Rugendas
Em Itupeva há um bairro chamado Quilombo, provavelmente uma referência a esses fatos, a respeito dos quais infelizmente não conseguimos mais informações.

Também não conseguimos mais informações acerca de um episódio ainda mais tétrico que teria acontecido em nossa cidade no ano de 1754, quando os governantes da cidade teriam contratado um capitão do mato (caçador de escravos fugidos)  para eliminar um quilombo, matando os líderes e espetando suas cabeças em estacas fincados junto à estrada, para que servissem de exemplo a outros possíveis fugitivos.