domingo, 4 de setembro de 2016

1935: O CAMPEONATO DE XADREZ DE NOSSA CIDADE



No final do ano de 1935, encerrou-se em nossa cidade o campeonato de xadrez organizado   pelo "Núcleo Enxadrístico Jundiahyense" e  do qual participaram jogadores ligados à entidade organizadora e à "Associação do Empregados no Commercio".

O vencedor do torneio foi Mario Tobias de Aguiar; dentre os participantes, algumas pessoas muito conhecidas em nossa cidade, como o vice campeão, o médico  Nicolino de Lucca, que dá nome à maior praça de esportes de nossa cidade, o Bolão; o Professor Lázaro de Miranda Duarte, além de membros de famílias tradicionais de nossa cidade, como Carletti, Taddei, Faggiano, Avallone, Wood e Giollo. Tudo isso é foi relatado pela "Folha da Manhã", em sua edição de 21 de novembro daquele ano.  

Dentro do verdadeiro espírito esportivo, todos os participantes receberam prêmios, medalhas e objetos oferecidos por estabelecimentos comerciais de nossa cidade.

Relembrar esses estabelecimentos é uma volta à infância: a Casa Eichemberger ofereceu uma cigarreira de prata; a Casa Independência, um chapéu; a Casa Trevo, uma camisa de seda e a Casa Rappa, ofereceu uma fruteira. 

Acerca desta última, vale lembrar o que escreveu o saudoso historiador Aldo Cipolato: “A velha Casa Rappa também nos servia de casa bancária. Jundiaí, naquela época, não possuía as agências bancárias que hoje possui. Ali guardava-se e tomava-se dinheiro, a bons juros. Não se exigia outras coisas senão honradez e seriedade, a valerem mais que os avais, endossos e outras exigências de hoje. Para Sperandio Rappa, moral era documento”.

Curiosamente, todos estes estabelecimentos   ficavam na Rua Barão de Jundiaí, o que mostra como nossa cidade era pequena naquela época. 

Quanto ao xadrez, existe (ou existiu) em nossa cidade o "Clube de Xadrez XIII de Agosto", acerca do qual não conseguimos maiores informações.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

COMEMORANDO O 7 DE SETEMBRO EM 1933

Em 1933, o 7 de setembro foi comemorado em nossa cidade: na véspera, uma 4ª feira, aconteceu um baile no Grêmio CP. Na tarde do dia 7, no "Jardim Público", tocou a Banda Paulista - o evento iniciou-se com a execução do Hino Nacional, que foi acompanhado pela "banda de cornetas e tambores" do 2º Grupo de Artilharia de Dorso (atual 12º GAC) .


domingo, 28 de agosto de 2016

AS PROEZAS DO SARGENTO

Em meados dos anos 1920, não havia unidade do Exército sediada em Jundiaí. Foi uma década agitada: a Revolta do Forte de Copacabana (1922), a Revolução de 1924 e outros movimentos políticos exigiram que o então 2° Grupo de Artilharia de Montanha (hoje 12º GAC), ficasse fora de nossa cidade por algum tempo.

Nessa ocasião, o antigo quartel da Rua do Rosário passou a ser ocupado pelo destacamento da Força Pública responsável pelo policiamento da cidade. Esse destacamento, ainda como consequência dos acontecimentos  políticos, especialmente da Revolução de 1924, era comandando por um certo Antonio (ou André) Andrade, 1º sargento do Exército.

Como noticiou a Folha da Manhã de 30 de outubro de 1926, o quartel era enorme para abrigar os vinte soldados da Força que
O velho quartel
compunham o destacamento, o que despertou a "criatividade" do Sargento, que passou a retirar material do quartel (inclusive o madeirame) e despachar esse material para Santos, onde residia.

Ali, segundo o jornal, o material era recebido e utilizado para a construção de "uma confortável vivenda" para o Sargento e sua família - mas a "esperteza" foi detetada e um inquérito foi instaurado - seria interessante sabermos como a história terminou...   

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

PORCELANA SÃO PEDRO - PRODUZINDO ARTE EM JUNDIAÍ

Porcelana São Pedro, fundada em 14 de junho de 1944,  situava-se em área onde hoje ficam a loja da Coopercica e o conjunto residencial Parque das Flores, na região do Jardim Cica; ocupava uma área de 25.000 m2. com 3.000 m2 de área construída. O acesso a ela dava-se por uma pequena travessa da Rua Cica, chamada Arthur Germano Fehr, que aparece na foto acima. Tinha escritório em São Paulo, à Rua Barão de Itapetininga, 273 - 6o. andar. 

Seu diretor presidente era João Ferrara (que dá nome a uma rua do bairro); os demais diretores,   Agadir Lemes Ferrara, Felício Paulo dos Santos e Vicente João dos Santos.

Além de jogos de chá e café e outros utensílios domésticos, fabricava peças decorativas, muitas das quais pintadas à mão, com filetes de ouro e que hoje são cobiçadas por colecionadores.

O jornal "O Correio Paulistano", em sua edição de 18 de junho de 1948 trazia uma matéria  relatando a visita de um de seus repórteres à São Pedro, que dizia "Antes de penetrar na sala-exposição, pensávamos encontrar produtos rústicos e comuns, desses artigos que não passam de imitação grotesca de verdadeiros  trabalhos   de boa qualidade e arte.

Não foi decepção o que vimos. Foi uma verdadeira revelação. Sentimo-nos como se estivéssemos diante duma vitrina de loja de objetos de artes de rua elegante da capital.



Os nossos olhares desfilavam diante dos aparelhos de chá e de café decorados e com frisos de ouro e decalco. Jogos de salada e saladeiras artísticos. Vasos finos e pintados com flores de tons diversos.


E dos "bibelots" o que dizer?  Esses "bibelots" que ornamentam todos os cantos
de casa de gosto. As formas mais variadas e os motivos mais interessantes, aves, cães, gatos, gansos, passarinhos, coelhos, elefantes, patos, anjinhos, cavaleiros, bébés, crianças, andaluzas com saia-balão e até Pierrots com suas violas.

Tudo em porcelana de boa qualidade. Tudo denota finura e ambiente agradável"

A confirmação do que disse o jornal está em página do site "Porcelana Brasil", que mostra algumas peças produzidas pela S. Pedro, mais uma indústria que se foi e deixou saudade.

domingo, 7 de agosto de 2016

UM CASO EXTRAORDINÁRIO ACONTECIDO NA "ZONA BAIXA" DE NOSSA CIDADE

Em uma noite de julho de 1931, dois indivíduos adentraram uma casa de tolerância (!) na "zona baixa" de nossa cidade (onde seria??? - ao que parece na rua Zacarias de Góes, à época chamada Adolfo Gordo). Ali pernoitaram. Mais tarde, um frequentador da casa deu o alarme: os dois seriam leprosos, que teriam sido vistos durante o dia andando pela cidade. 

À época, a lepra era uma doença temida (ainda é); seus portadores eram segregados do convívio social - no Brasil existia lei para que os portadores de lepra fossem "capturados" e obrigados a viver em leprosários, a exemplo do Hospital de Pirapitingui, situado entre Itu e Sorocaba.

Essa lei foi revogada em 1962, porém o retorno dos pacientes ao seu convívio social era extremamente difícil, face ao preconceito vigente. Na atualidade, a doença pode ser curada.

Refletindo a visão da época, a "Folha da Manhã" de 29 de julho de 1931 terminava o relato do fato recomendando que a polícia mandasse que as "decaídas" residentes no local fossem submetidas a um exame de sanidade. Muito triste... 


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O PARQUE INFANTIL DA PRAÇA DA BANDEIRA


A inauguração
O primeiro parque infantil de Jundiaí, situado onde hoje fica o Terminal Central (Praça da Bandeira), foi inaugurado em 14 de fevereiro de 1946 pelo Prefeito José Romeiro Pereira. 

Recebeu o nome de "Manoel Aníbal Marcondes", farmacêutico e também prefeito da cidade que foi o responsável pelo decreto de criação do parque  (1941), trabalhando em conjunto com a Profa. Judith Almeida Curado, que se tornou a primeira diretora, permanecendo no cargo até 1975. O Prefeito Manoel Aníbal Marcondes foi assassinado durante o seu mandato, em 18 de novembro de 1943 - narramos este fato em outro post.

A ideia inicial era construir o parque na  praça D. Pedro II, mas por esta estar rodeada de hospitais (São Vicente e atual Hospital Regional), decidiu-se construí-lo na Praça da Bandeira, o antigo Largo Santa Cruz, que por muitos anos servira como ponto de parada de tropeiros e bandeirantes que partiam em direção ao interior. 

O prédio principal
Tendo o Prefeito Manoel Aníbal Marcondes sido assassinado durante o seu mandato (18 de novembro de 1943), seu nome acabou sendo dado à instituição. Cercado por grandes figueiras, contava com excelentes instalações: no centro, havia um prédio  que abrigava a cozinha, sala de diretoria,
A piscina
vestiários, sala de brinquedos, salão para festas, um pequeno museu   e uma biblioteca com quase quinhentos livros, além dos espaços utilizados para atividades com as crianças. 


Na área externa, horta, piscina e espaços para atividades físicas e brincadeiras. Havia também assistência médica e odontológica

As crianças eram dividas em três grupos de acordo com a faixa etária: uma turma para os menores entre 3 e 6 anos, outra para os que tivessem entre 7 e 9 anos, e uma terceira para os que tivessem entre 10 e 13 anos. 

A Profª. Judith
Muitas pessoas viam o parque apenas  como um lugar onde as crianças ficavam apenas para dar sossego às mães, ignorando que ali, segundo matéria publicada pelo Diário de Jundiaí em 2 de junho de 1968, era um lugar onde as crianças "aprendem a ter disciplina. A obedecer e a atender a ordem dos mais velhos. Um parque infantil requer uma organização experiente, uma equipe de professoras e funcionárias capacitadas e especializadas, porque convenhamos, não é fácil lidar com criança".

Durante muitos Natais as instalações do parque foram cedidas à "Boa Semente", grupo que naquela época entregava brinquedos e outros presentes às famílias de crianças carentes. 

Mas tudo acabou:  na década de 1970, o Parque Infantil cedeu espaço espaço à Estação Rodoviária. As frondosas árvores foram cortadas, a estrutura quase toda demolida, sobrando apenas apenas os flamboyants plantados por Judith e seus alunos e algumas das velhas figueiras...

As fotos que ilustram o texto foram cedidas pelo Prof. Maurício Ferreira. 


sexta-feira, 29 de julho de 2016

UM CRIME MAL EXPLICADO EM BOTUJURU


As linhas da EF Santos a Jundiaí passam por um túnel de 590 metros de comprimento, situado entre a cidade de Francisco Morato (antigamente chamada Vila Bethlem) e o bairro de Botujurú, atualmente pertencente ao município de Campo Limpo Paulista

A estrada de ferro foi inaugurada em 1867, e o jornal Correio Paulistano narra um acontecimento terrível ocorrido na região: segundo o jornal,  um grupo mais de 30 portugueses emboscou 2 brasileiros; estes reagiram e mataram 3 dos portugueses, saindo os brasileiros apenas levemente feridos - uma história difícil de acreditar, levando em conta o tamanho dos dois grupos...

Note-se que quando as autoridades chegaram ao local, enterraram ali mesmo os mortos, pois pelo estado de decomposição dos corpos, não foi possível leva-los para o cemitério mais próximo. 

Os fatos ocorreram em 11 de janeiro de 1863 - seria interessante conhecer os motivos e os desdobramentos do caso. 

A foto mostra uma  "litorina"  entrando no túnel - esses trens já foram objeto de outro de nossos posts: "LITORINA: LIGANDO SÃO PAULO A CAMPINAS COM CONFORTO E SEGURANÇA" 


domingo, 24 de julho de 2016

WALDOMIRO LOBO DA COSTA - UM PREFEITO QUE FOI ALÉM DAS FRONTEIRAS DE NOSSA CIDADE

Waldomiro Lobo da Costa foi prefeito de nossa cidade de 1927 a 1930; exerceu inúmeros cargos públicos - foi deputado, presidente do Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo (1956-1958), etc. 

Como curiosidade, cabe dizer que em 1928, sob sua gestão, foi construído o muro na base do "Escadão" - 76 metros de comprimento por dois de altura; em 1929, foi feito  o projeto da escadaria e dos passeios pela inclinação do morro, bem  como do belvedere da parte superior, com vista para a Vila Arens. À época, o local era chamado "Morro do Grupo", numa referência ao então Grupo Escolar Cel. Siqueira de Moraes, situado nas proximidades.

Mas há um fato curioso e pouco conhecido a respeito de sua vida: foi condecorado pelo rei da Itália com a "Cruz de Cavaleiro da Ordem da Coroa", que lhe foi entregue em nossa cidade pelo cônsul geral da Itália em São Paulo, Serafino Mazzolini - a entrega ocorreu em maio de 1930. 

A entrega foi motivo para grandes festividades, segundo o "Correio Paulistano" de 14 de maio de 1930. Inicialmente, houve um grande jantar, presentes membros de famílias de destaque de nossa cidade: Queiroz Guimarães, Rappa, Traldi, De Vecchi, Gandra, Castilho, os doutores Samuel Martins e Domingos Anastácio e outras pessoas de destaque. 

O cardápio foi composto de diversos pratos e vinhos finos, ao final do qual Waldomiro ergueu um brinde ao cônsul e à sua mãe que o acompanhava. O cônsul, respondeu com "brilhante e comovida oração". Mais tarde, um baile no Grêmio CP, que se prolongou até a manhã seguinte; mesmo no baile, mais discursos aconteceram. 

No dia seguinte, o cônsul visitou o bairro do Traviu, tendo sido recebido na residência do (mais tarde) Comendador Antonio Carbonari com mais discursos e uma mesa de doces e champanhe.

Para o almoço, às 13 horas, houve  um banquete (70 talheres), desta vez nos salões do "Casino Jundiahyense". O serviço refinado, aos cuidados de Angelo Semenza, foi acompanhado pela musica do "Jazz" (banda) Oriental (de que já falamos em outro post) e seguido, como de praxe, por mais discursos.

A seguir, a parte mais interessante da visita: o grupo dirigiu-se para a sede do Fascio de nossa cidade - Fascio era o nome dado a um
grupo local de fascistas. Essa sede, segundo o jornal, ficava nos "altos do Polytheama" - seria o prédio do teatro? 

A seguir, no teatro propriamente dito, completamente lotado, aconteceu a entrega da condecoração. A solenidade foi abrilhantada pela Banda Ítalo-Brasileira (mais tarde União Brasileira), que executou os hinos nacionais do Brasil e da Itália e o hino "Fascistas". 

E mais discursos, do cônsul, de jornalista, do juiz de direito - até chegar-se ao homenageado, que entre outros elogios ao governo fascista de Mussolini, disse que "ao salvar a Itália das  terríveis consequências da invasão moscovita, havia salvado toda a civilização cristã"! Disse também que, com a alma de joelhos, queria depor um ósculo respeitoso nas mãos da velhinha que dera à Itália um filho do valor de Serafino Mazzolini, o Cônsul...

Encerrou-se a cerimônia com a Banda executando o Hino Nacional e a canção "Giovinezza", o hino do Partido Fascista.

E como o  pessoal gostava de festas: o cônsul partiu para São Paulo no trem das 19 horas, e às 21, Waldomiro, com a condecoração no peito, abria as comemorações do 22ª aniversário do Gabinete de Leitura Ruy Barbosa - mais um baile, que se prolongou até a madrugada, não sem antes um discurso de 40 minutos do orador da entidade, o juiz de direito Samuel Martins...

Quanto a Mazzolini, teve uma brilhante carreira diplomática, morrendo em 1945 aos 55 anos, vítima de diabetes, agravada pela falta de medicamentos provocada pela guerra. 

Ao saber de sua morte dele disse Mussolini: "era un collaboratore onesto, intelligente, buono e devoto, quale raramente ho avuto. Gli Esteri (Ministério de Relações Exteriores) perdono un Capo insostituibile e l'Italia un patriota esemplare".

quinta-feira, 21 de julho de 2016

ALBA ROSSA - UM JORNAL ANARQUISTA

O primeiro número do  semanário "Alba Rossa" (Aurora Vermelha) circulou em 10 de maio de 1919.

Escrito em italiano  era voltado ao grande número de italianos recém chegados ao Brasil; seus editores apresentavam-se como anarquistas, defendendo os ideais comunistas que estavam sendo implantados pela Revolução Soviética. Ironicamente, comunistas e anarquistas tornaram-se inimigos mortais (literalmente) depois de alguns anos - na Guerra Civil espanhola dedicaram-se alegremente a massacrar uns aos outros, facilitando a vitória das tropas de Franco.

O jornal era dirigido por Silvio Antonelli, um operário da construção civil; o recorte ao lado, da primeira edição, relaciona o grupo que editava o jornal e dá uma ideia do tom da publicação.

O jornal trazia comentários acerca de uma greve que estava acontecendo em várias partes do país - a greve continuava em Sorocaba com a ocorrência de conflitos entre grevistas e polícia. Conforme recorte abaixo, o jornal dizia que em Jundiaí, Campinas e Poços de Caldas a greve continuava de forma mais pacífica - com fina ironia, afirmava que "a polícia, ao que parece, não se mostrava à altura da situação. Ainda não havia matado nenhum menino..."!

domingo, 3 de julho de 2016

NEPOTISMO, PRAGA ANTIGA

Nepotismo (do latim nepos, neto ou descendente) é o termo utilizado para designar o favorecimento de parentes  ou amigos em detrimento de pessoas mais qualificadas, especialmente no que diz respeito à nomeação ou promoções em uma organização qualquer.

É uma praga antiga, inclusive no Brasil.  Logo após chegar aqui em 1500, Pero Vaz de Caminha, que era o escrivão da frota de Cabral, teria embutido no relatório da viagem que fez ao rei de Portugal, um pedido para que seu genro recebesse um cargo público. 

O jornal "Correio Paulistano", em sua edição de 17 de dezembro de 1875, publica uma carta assinada por um "jundiahyano na côrte", provavelmente alguém de nossa cidade que ali vivia, denunciando um ato de nepotismo - a carta era destinada ao Imperador, através do Ministro da Justiça. 

Dizia a carta que o juiz de Santos,  Porchat de Assis, esperava brevemente ser nomeado para nossa cidade, pois um certo Amaral, que ocupava esse cargo em nossa cidade, esperava ser transferido para o Rio de Janeiro.

O juiz Porchat era sobrinho do conselheiro Duarte de Azevedo, ex ministro da Justiça, que "nipoticamente" trabalhava pela transferência do sobrinho para Jundiaí. 

Em sua carta. nosso conterrâneo reclamava do fato de estarem sendo preteridos outros juízes mais antigos, pois Porchat tinha 20 e poucos anos de idade e acabara de completar seu primeiro quatriênio (provavelmente, período de quatro anos como juiz). 

Concluía a carta a afirmação que o pessoal da terra não aceitaria a nomeação de bom grado. 

Como se disse, praga antiga e resistente.

terça-feira, 28 de junho de 2016

QUILOMBOS EM JUNDIAÍ

Em dissertação de mestrado apresentada à UFRJ, Deborah da Costa Fontenelle discute o tema "quilombos", e recorrendo ao jornal Correio de Campinas, narra fatos ocorridos em Itupeva, à época parte de Jundiaí. Na medida do possível, conservamos as expressões da época constantes do texto:

"Há um quilombo do escravos fugidos na fazenda denominada S. Simão, no districto de Jundiahy, distante umas 2 ½ léguas da estação de Itupeva, da qual é administrador o Sr. Francisco Bueno. 

O ataque a um quilombo
Aos 29 do passado (junho de 1885) o Sr. Bueno ajuntou uma força de 15 paisanos e assaltou o  quilombo, resultando d’este assalto a morte de um dos paisanos e a retirada dos mais, que deixaram o cadáver de seu companheiro nas mãos dos aquilombados. 

O Sr. Bueno communicou o occorrido ao delegado de policia de Jundiahy, por telegramma e pediu uma força para desalojar os aquilombados. O delegado respondeu-lhe immediatamente que não tinha a força precisa disponível e que não remettesse o cadáver para Jundiahy com as testemunhas do facto, e telegraphou ao chefe de policia, pedindo um destacamento para servir no caso. 

Este veiu no dia 30 do passado em numero de 15 praças, commandadas por um tenente, e desembarcou em Jundiahy. No mesmo dia o delegado fez marchar o destacamento para a scena do distúrbio. 

Chegado o destacamento ao sitio, o commandante fez o reconhecimento da situação das cousas, e communicou ao delegado que os escravos estavam entricheirados na matta e que não podia subjugal-os sem empregar os meios mais enérgicos. 

O delegado respondeu que fizesse uso das armas, mas o commandante, vendo que havia grande desproporção entre o numero das praças e dos fugidos, e que estes tinham uma immensa vantagem do terreno, julgou mais prudente não atacar o quilombo sem um reforço de praças, e voltou para Jundiahy, com o destacamento, hoje (2 de julho) de tarde. 

Diz o delegado que elle espera a chegada de um reforço sufficiente, de S. Paulo, amanhã, e fará seguir a força, assim augmentada, de novo á scena do distúrbio. 

A gente da visinhança do quilombo assevera que há 43 dos fugidos, e que o cadáver do infeliz paizano, que morreu no conflicto de 29 do passado, está lá a pequena distancia do quilombo, espetado n’um mastro para a admoestação dos temerários. "

Capitão do Mato - gravura de Rugendas
Em Itupeva há um bairro chamado Quilombo, provavelmente uma referência a esses fatos, a respeito dos quais infelizmente não conseguimos mais informações.

Também não conseguimos mais informações acerca de um episódio ainda mais tétrico que teria acontecido em nossa cidade no ano de 1754, quando os governantes da cidade teriam contratado um capitão do mato (caçador de escravos fugidos)  para eliminar um quilombo, matando os líderes e espetando suas cabeças em estacas fincados junto à estrada, para que servissem de exemplo a outros possíveis fugitivos.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

REMANDO CONTRA O PROGRESSO: JUNDIAÍ NÃO PRECISAVA DE EMISSORA DE RÁDIO...

Muita gente é contra novas tecnologias, por razões diversas: medo de perder poder/status, de não se adaptar a novas situações, sensação de conforto com a situação atual e outras, dentre as quais aparecem com frequência razões de ordem econômico/financeira. 

Um caso típico ligado a esse motivo é relatado pelo jornal Folha da Manhã em sua edição de 21/08/1935, posicionando-se radicalmente contra a instalação de uma emissora de rádio em nossa cidade.

As justificativas apresentadas eram estapafúrdias, como interferências nas transmissões das  emissoras de São Paulo (eram sete), do Rio de Janeiro e até mesmo da Argentina!

O autor do texto diz ainda que a programação, com artistas locais jamais poderia competir com a das grandes emissoras - convenientemente, esqueceu-se dos discos...

O artigo diz ainda que os empresários da cidade não anunciariam aqui, preferindo faze-lo nas emissoras da capital, em função do maior alcance - "esquece-se" também do custos muito maiores envolvidos.

Termina o texto  dizendo que situação similar viviam os jornais locais, que não podiam competir com os de São Paulo, e que nossa cidade deveria se conformar com as adversidades geradas pelo fato de estarmos próximos a São Paulo.

Isso é que era "imprensa marrom"! Para os mais jovens, "imprensa marrom" é aquela que não segue princípios éticos - no caso, a publicação de texto evidentemente gerado em função de interesses comerciais. 

Mas parece que funcionou, ao menos durante algum tempo: a primeira emissora instalada em Jundiaí foi a Difusora, que entrou no ar apenas em junho de 1946


domingo, 19 de junho de 2016

O VISCONDE DE TAUNAY DANÇOU EM NOSSA CIDADE



Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay (1843-1899), o Visconde de Taunay, destacou-se como intelectual, político e militar; dá nome a uma rua de nossa cidade, no bairro de Vila Arens. 

Autor de obras marcantes, como Inocência e A Retirada da Laguna - foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira n.° 13, que tem como patrono Francisco Otaviano. 

Na política, foi deputado por Goiás e Santa Catarina, senador por essa província e presidente (como eram chamados os governadores) do Paraná, sendo um dos responsáveis pela criação do o Passeio Público, famoso parque de Curitiba.

Como militar, atingiu o posto de major e participou da Guerra do Paraguai, registrando em livro um trágico e heroico episódio de nossa historia, a retirada da Laguna. O livro, escrito originalmente em francês, foi publicado em 1871 e teve enorme repercussão.

Em suas obras, Taunay relata alguns episódios relativos à guerra, acontecidos em nossa cidade.

Taunay fazia parte de uma expedição comandada pelo coronel Manoel Pedro Drago, que em 1865 deixou o Rio de Janeiro rumo a Santos, pelo navio "Santa Maria". De trem, os seis oficiais que compunham a Comissão de Engenheiros da coluna, foram até Cubatão, onde tomaram uma diligência para chegar a São Paulo.

De S. Paulo, partiram para Jundiaí, na "frigidíssima" madrugada de 11 de abril daquele ano. Taunay montava a mula "Dona Branca", que havia comprado por 240 mil réis. 

Ao chegarem a Jundiaí, hospedaram-se na estalagem do Barão da Ponte (de que já falamos em outro post) - nas palavras de Taunay, o tal Barão era um português gaiato, que dizia "os outros barões são feitos pelo Imperador - eu, pela unânime aclamação dos povos"! Era o Barão de estatura mediana, corpulento, de face redonda e rosada. 

A estalagem ficava na região da ponte que cruzava o Rio Jundiaí (provavelmente na área da atual Vila Lacerda), logo após cruzar-se o rio. 

Era uma grande e frequentada hospedaria, um edifício em forma de quartel onde o viajante encontrava boas acomodações, camas limpas e comida regular. Seu dono era conhecido pela sua bonomia e gentileza. 

Taunay segue dizendo que o Barão tinha duas filhas, que cuidavam da estalagem: a Nha Cula (Clotilde), “feia e magra” e a Nha Bé (Isabel), “gorduchona, alourada e mais apetitosa”. Taunay segue narrando: "na hospedaria havia um velho piano, muito desafinado. Pois o comandante me fez tocá-lo e assim improvisei alguns trechos de óperas e das primeiras obras de Verdi". 

Logo depois chegou à estalagem a "música de Jundiaí", uma "péssima charanga" onde dominavam o trombone, o prato e o bumbo e armou-se um baile, onde os oficiais "apertaram deveras as duas beldades" - eram as únicas mulheres presentes... O Barão dizia "divirtam-se, mas respeitem as meninas"...

Já estavam no local outros militares, entre os quais "um major velho, de peruca", comandante do 21º Batalhão, que pediu para "recitar um improviso". Foi para o centro da sala, com um lenço na mão e disse ao mestre da charanga: "quando eu der sinal com o lenço, toquem o Hino Nacional" - e recitou:

"Se aqui estamos reunidos,

Em solene ocasião,

É p'ra vingarmos valentes,

Pedro e a Constituição."


Deu sinal com o lenço e a charanga atacou o Hino; ao final dos primeiros compassos, o Major pediu silêncio e recitou mais algumas quadrinhas, todas péssimas. Segundo Taunay, a cena era irresistivelmente cômica. 

O então Tenente Taunay era muito jovem à época. Com seus 22 anos, músico e compositor, deve ter se divertido muito na festa...


Acampamento durante a marcha

A expedição marchou mais de dois mil quilômetros, até chegar a Miranda, no Mato Grosso do Sul, em setembro de 1866. Comandada então pelo coronel Carlos de Morais Camisão, invadiu o território paraguaio, chegando à Fazenda Laguna, que era de propriedade de Solano Lopez, em abril de 1867.

Acossados pelos paraguaios, pelas doenças e pela fome, os brasileiros se retiram 
Reduzida à metade dos 3.000 homens originais, muito distante das linhas brasileiras, sem víveres, remédios, armas e equipamentos adequados e muito afetada por doenças como cólera, tifo, e beribéri, a coluna do foi forçada a retirar-se fustigada pelos constantes ataques da cavalaria paraguaia, que utilizava táticas de guerrilha, infligindo perdas severas aos brasileiros.

Conseguiram chegar às linhas brasileiras em Coxim, em junho de 1868, apenas 700 homens, alquebrados pela doença e pela fome - o Coronel Camisão morreu pelo caminho, vítima do cólera.

Teve um papel muito importante no episódio José Francisco Lopes, o Guia Lopes, um fazendeiro da região que atuou como guia das tropas - sem o seu conhecimento da região, as baixas teriam sido ainda maiores. Também morreu de cólera quase ao final da retirada.

Finda a retirada, a guerra seguiu para Taunay. A foto abaixo mostra-o em companhia de funcionários e oficiais brasileiros, já ao final da guerra: aparecem o Conde D'Eu, com a mão na cintura e à sua esquerda, o futuro Visconde do Rio Branco (pai do Barão) e que chegou a chefiar o gabinete do Imperador (era como um primeiro ministro) entre 1871 e 1875; Taunay está entre eles, na segunda fila.









quarta-feira, 15 de junho de 2016

MOLECAGEM: QUASE TRAGÉDIA

Uma brincadeira de estudantes quase gerou uma tragédia no dia 28 de abril de 1954. 

Um mecânico estacionou um ônibus na Rua Jorge Zolner, próximo à sua residência, no centro da cidade, para ir almoçar.  

Um grupo de estudantes entrou no ônibus e provavelmente soltou o freio de mão: o ônibus começou a se movimentar, desceu a Jorge Zolner e cruzou a Rua Leonardo Cavalcanti, indo em direção à Rangel Pestana. 

No caminho, atropelou e feriu dois menores que estavam na calçada e invadiu a cozinha de uma casa, onde estavam a proprietária, que se feriu levemente, e quatro crianças, que escaparam ilesas.

Uma "quase tragédia" que foi noticiada pelo jornal Folha da Noite - note-se no recorte do jornal que o número da casa atingida é dado como 769, o que pode indicar um erro do jornal ou o fato de ter sido alterada a numeração; na atualidade, esse número está próximo à Rua Eduardo Tomanik, no sentido contrário ao que desceu o ônibus. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

UM CASO DE AMOR EM 1928

A Folha da Manhã de 12 de setembro de 1928 contava a história de um barbeiro, residente em Santos, que morara em nossa cidade onde teve uma namorada. 

O "fígaro" como o jornal se referia ao barbeiro, mudara-se para Santos e um dia voltou a Jundiaí para "matar as saudades" - segundo o jornal, "foi só, mas voltou acompanhado", trazendo a namorada que fugiu de casa.

Apesar de ser uma ocorrência comum, como era praxe na época o assunto foi levado à Polícia, que deteve os dois.

Mas parece que o caso terminou bem, pois voltaram juntos para nossa cidade...