domingo, 24 de julho de 2016

WALDOMIRO LOBO DA COSTA - UM PREFEITO QUE FOI ALÉM DAS FRONTEIRAS DE NOSSA CIDADE

Waldomiro Lobo da Costa foi prefeito de nossa cidade de 1927 a 1930; exerceu inúmeros cargos públicos - foi deputado, presidente do Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo (1956-1958), etc. 

Como curiosidade, cabe dizer que em 1928, sob sua gestão, foi construído o muro na base do "Escadão" - 76 metros de comprimento por dois de altura; em 1929, foi feito  o projeto da escadaria e dos passeios pela inclinação do morro, bem  como do belvedere da parte superior, com vista para a Vila Arens. À época, o local era chamado "Morro do Grupo", numa referência ao então Grupo Escolar Cel. Siqueira de Moraes, situado nas proximidades.

Mas há um fato curioso e pouco conhecido a respeito de sua vida: foi condecorado pelo rei da Itália com a "Cruz de Cavaleiro da Ordem da Coroa", que lhe foi entregue em nossa cidade pelo cônsul geral da Itália em São Paulo, Serafino Mazzolini - a entrega ocorreu em maio de 1930. 

A entrega foi motivo para grandes festividades, segundo o "Correio Paulistano" de 14 de maio de 1930. Inicialmente, houve um grande jantar, presentes membros de famílias de destaque de nossa cidade: Queiroz Guimarães, Rappa, Traldi, De Vecchi, Gandra, Castilho, os doutores Samuel Martins e Domingos Anastácio e outras pessoas de destaque. 

O cardápio foi composto de diversos pratos e vinhos finos, ao final do qual Waldomiro ergueu um brinde ao cônsul e à sua mãe que o acompanhava. O cônsul, respondeu com "brilhante e comovida oração". Mais tarde, um baile no Grêmio CP, que se prolongou até a manhã seguinte; mesmo no baile, mais discursos aconteceram. 

No dia seguinte, o cônsul visitou o bairro do Traviu, tendo sido recebido na residência do (mais tarde) Comendador Antonio Carbonari com mais discursos e uma mesa de doces e champanhe.

Para o almoço, às 13 horas, houve  um banquete (70 talheres), desta vez nos salões do "Casino Jundiahyense". O serviço refinado, aos cuidados de Angelo Semenza, foi acompanhado pela musica do "Jazz" (banda) Oriental (de que já falamos em outro post) e seguido, como de praxe, por mais discursos.

A seguir, a parte mais interessante da visita: o grupo dirigiu-se para a sede do Fascio de nossa cidade - Fascio era o nome dado a um
grupo local de fascistas. Essa sede, segundo o jornal, ficava nos "altos do Polytheama" - seria o prédio do teatro? 

A seguir, no teatro propriamente dito, completamente lotado, aconteceu a entrega da condecoração. A solenidade foi abrilhantada pela Banda Ítalo-Brasileira (mais tarde União Brasileira), que executou os hinos nacionais do Brasil e da Itália e o hino "Fascistas". 

E mais discursos, do cônsul, de jornalista, do juiz de direito - até chegar-se ao homenageado, que entre outros elogios ao governo fascista de Mussolini, disse que "ao salvar a Itália das  terríveis consequências da invasão moscovita, havia salvado toda a civilização cristã"! Disse também que, com a alma de joelhos, queria depor um ósculo respeitoso nas mãos da velhinha que dera à Itália um filho do valor de Serafino Mazzolini, o Cônsul...

Encerrou-se a cerimônia com a Banda executando o Hino Nacional e a canção "Giovinezza", o hino do Partido Fascista.

E como o  pessoal gostava de festas: o cônsul partiu para São Paulo no trem das 19 horas, e às 21, Waldomiro, com a condecoração no peito, abria as comemorações do 22ª aniversário do Gabinete de Leitura Ruy Barbosa - mais um baile, que se prolongou até a madrugada, não sem antes um discurso de 40 minutos do orador da entidade, o juiz de direito Samuel Martins...

Quanto a Mazzolini, teve uma brilhante carreira diplomática, morrendo em 1945 aos 55 anos, vítima de diabetes, agravada pela falta de medicamentos provocada pela guerra. 

Ao saber de sua morte dele disse Mussolini: "era un collaboratore onesto, intelligente, buono e devoto, quale raramente ho avuto. Gli Esteri (Ministério de Relações Exteriores) perdono un Capo insostituibile e l'Italia un patriota esemplare".

quinta-feira, 21 de julho de 2016

ALBA ROSSA - UM JORNAL ANARQUISTA

O primeiro número do  semanário "Alba Rossa" (Aurora Vermelha) circulou em 10 de maio de 1919.

Escrito em italiano  era voltado ao grande número de italianos recém chegados ao Brasil; seus editores apresentavam-se como anarquistas, defendendo os ideais comunistas que estavam sendo implantados pela Revolução Soviética. Ironicamente, comunistas e anarquistas tornaram-se inimigos mortais (literalmente) depois de alguns anos - na Guerra Civil espanhola dedicaram-se alegremente a massacrar uns aos outros, facilitando a vitória das tropas de Franco.

O jornal era dirigido por Silvio Antonelli, um operário da construção civil; o recorte ao lado, da primeira edição, relaciona o grupo que editava o jornal e dá uma ideia do tom da publicação.

O jornal trazia comentários acerca de uma greve que estava acontecendo em várias partes do país - a greve continuava em Sorocaba com a ocorrência de conflitos entre grevistas e polícia. Conforme recorte abaixo, o jornal dizia que em Jundiaí, Campinas e Poços de Caldas a greve continuava de forma mais pacífica - com fina ironia, afirmava que "a polícia, ao que parece, não se mostrava à altura da situação. Ainda não havia matado nenhum menino..."!

domingo, 3 de julho de 2016

NEPOTISMO, PRAGA ANTIGA

Nepotismo (do latim nepos, neto ou descendente) é o termo utilizado para designar o favorecimento de parentes  ou amigos em detrimento de pessoas mais qualificadas, especialmente no que diz respeito à nomeação ou promoções em uma organização qualquer.

É uma praga antiga, inclusive no Brasil.  Logo após chegar aqui em 1500, Pero Vaz de Caminha, que era o escrivão da frota de Cabral, teria embutido no relatório da viagem que fez ao rei de Portugal, um pedido para que seu genro recebesse um cargo público. 

O jornal "Correio Paulistano", em sua edição de 17 de dezembro de 1875, publica uma carta assinada por um "jundiahyano na côrte", provavelmente alguém de nossa cidade que ali vivia, denunciando um ato de nepotismo - a carta era destinada ao Imperador, através do Ministro da Justiça. 

Dizia a carta que o juiz de Santos,  Porchat de Assis, esperava brevemente ser nomeado para nossa cidade, pois um certo Amaral, que ocupava esse cargo em nossa cidade, esperava ser transferido para o Rio de Janeiro.

O juiz Porchat era sobrinho do conselheiro Duarte de Azevedo, ex ministro da Justiça, que "nipoticamente" trabalhava pela transferência do sobrinho para Jundiaí. 

Em sua carta. nosso conterrâneo reclamava do fato de estarem sendo preteridos outros juízes mais antigos, pois Porchat tinha 20 e poucos anos de idade e acabara de completar seu primeiro quatriênio (provavelmente, período de quatro anos como juiz). 

Concluía a carta a afirmação que o pessoal da terra não aceitaria a nomeação de bom grado. 

Como se disse, praga antiga e resistente.

terça-feira, 28 de junho de 2016

QUILOMBOS EM JUNDIAÍ

Em dissertação de mestrado apresentada à UFRJ, Deborah da Costa Fontenelle discute o tema "quilombos", e recorrendo ao jornal Correio de Campinas, narra fatos ocorridos em Itupeva, à época parte de Jundiaí. Na medida do possível, conservamos as expressões da época constantes do texto:

"Há um quilombo do escravos fugidos na fazenda denominada S. Simão, no districto de Jundiahy, distante umas 2 ½ léguas da estação de Itupeva, da qual é administrador o Sr. Francisco Bueno. 

O ataque a um quilombo
Aos 29 do passado (junho de 1885) o Sr. Bueno ajuntou uma força de 15 paisanos e assaltou o  quilombo, resultando d’este assalto a morte de um dos paisanos e a retirada dos mais, que deixaram o cadáver de seu companheiro nas mãos dos aquilombados. 

O Sr. Bueno communicou o occorrido ao delegado de policia de Jundiahy, por telegramma e pediu uma força para desalojar os aquilombados. O delegado respondeu-lhe immediatamente que não tinha a força precisa disponível e que não remettesse o cadáver para Jundiahy com as testemunhas do facto, e telegraphou ao chefe de policia, pedindo um destacamento para servir no caso. 

Este veiu no dia 30 do passado em numero de 15 praças, commandadas por um tenente, e desembarcou em Jundiahy. No mesmo dia o delegado fez marchar o destacamento para a scena do distúrbio. 

Chegado o destacamento ao sitio, o commandante fez o reconhecimento da situação das cousas, e communicou ao delegado que os escravos estavam entricheirados na matta e que não podia subjugal-os sem empregar os meios mais enérgicos. 

O delegado respondeu que fizesse uso das armas, mas o commandante, vendo que havia grande desproporção entre o numero das praças e dos fugidos, e que estes tinham uma immensa vantagem do terreno, julgou mais prudente não atacar o quilombo sem um reforço de praças, e voltou para Jundiahy, com o destacamento, hoje (2 de julho) de tarde. 

Diz o delegado que elle espera a chegada de um reforço sufficiente, de S. Paulo, amanhã, e fará seguir a força, assim augmentada, de novo á scena do distúrbio. 

A gente da visinhança do quilombo assevera que há 43 dos fugidos, e que o cadáver do infeliz paizano, que morreu no conflicto de 29 do passado, está lá a pequena distancia do quilombo, espetado n’um mastro para a admoestação dos temerários. "

Capitão do Mato - gravura de Rugendas
Em Itupeva há um bairro chamado Quilombo, provavelmente uma referência a esses fatos, a respeito dos quais infelizmente não conseguimos mais informações.

Também não conseguimos mais informações acerca de um episódio ainda mais tétrico que teria acontecido em nossa cidade no ano de 1754, quando os governantes da cidade teriam contratado um capitão do mato (caçador de escravos fugidos)  para eliminar um quilombo, matando os líderes e espetando suas cabeças em estacas fincados junto à estrada, para que servissem de exemplo a outros possíveis fugitivos.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

REMANDO CONTRA O PROGRESSO: JUNDIAÍ NÃO PRECISAVA DE EMISSORA DE RÁDIO...

Muita gente é contra novas tecnologias, por razões diversas: medo de perder poder/status, de não se adaptar a novas situações, sensação de conforto com a situação atual e outras, dentre as quais aparecem com frequência razões de ordem econômico/financeira. 

Um caso típico ligado a esse motivo é relatado pelo jornal Folha da Manhã em sua edição de 21/08/1935, posicionando-se radicalmente contra a instalação de uma emissora de rádio em nossa cidade.

As justificativas apresentadas eram estapafúrdias, como interferências nas transmissões das  emissoras de São Paulo (eram sete), do Rio de Janeiro e até mesmo da Argentina!

O autor do texto diz ainda que a programação, com artistas locais jamais poderia competir com a das grandes emissoras - convenientemente, esqueceu-se dos discos...

O artigo diz ainda que os empresários da cidade não anunciariam aqui, preferindo faze-lo nas emissoras da capital, em função do maior alcance - "esquece-se" também do custos muito maiores envolvidos.

Termina o texto  dizendo que situação similar viviam os jornais locais, que não podiam competir com os de São Paulo, e que nossa cidade deveria se conformar com as adversidades geradas pelo fato de estarmos próximos a São Paulo.

Isso é que era "imprensa marrom"! Para os mais jovens, "imprensa marrom" é aquela que não segue princípios éticos - no caso, a publicação de texto evidentemente gerado em função de interesses comerciais. 

Mas parece que funcionou, ao menos durante algum tempo: a primeira emissora instalada em Jundiaí foi a Difusora, que entrou no ar apenas em junho de 1946


domingo, 19 de junho de 2016

O VISCONDE DE TAUNAY DANÇOU EM NOSSA CIDADE



Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay (1843-1899), o Visconde de Taunay, destacou-se como intelectual, político e militar; dá nome a uma rua de nossa cidade, no bairro de Vila Arens. 

Autor de obras marcantes, como Inocência e A Retirada da Laguna - foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira n.° 13, que tem como patrono Francisco Otaviano. 

Na política, foi deputado por Goiás e Santa Catarina, senador por essa província e presidente (como eram chamados os governadores) do Paraná, sendo um dos responsáveis pela criação do o Passeio Público, famoso parque de Curitiba.

Como militar, atingiu o posto de major e participou da Guerra do Paraguai, registrando em livro um trágico e heroico episódio de nossa historia, a retirada da Laguna. O livro, escrito originalmente em francês, foi publicado em 1871 e teve enorme repercussão.

Em suas obras, Taunay relata alguns episódios relativos à guerra, acontecidos em nossa cidade.

Taunay fazia parte de uma expedição comandada pelo coronel Manoel Pedro Drago, que em 1865 deixou o Rio de Janeiro rumo a Santos, pelo navio "Santa Maria". De trem, os seis oficiais que compunham a Comissão de Engenheiros da coluna, foram até Cubatão, onde tomaram uma diligência para chegar a São Paulo.

De S. Paulo, partiram para Jundiaí, na "frigidíssima" madrugada de 11 de abril daquele ano. Taunay montava a mula "Dona Branca", que havia comprado por 240 mil réis. 

Ao chegarem a Jundiaí, hospedaram-se na estalagem do Barão da Ponte (de que já falamos em outro post) - nas palavras de Taunay, o tal Barão era um português gaiato, que dizia "os outros barões são feitos pelo Imperador - eu, pela unânime aclamação dos povos"! Era o Barão de estatura mediana, corpulento, de face redonda e rosada. 

A estalagem ficava na região da ponte que cruzava o Rio Jundiaí (provavelmente na área da atual Vila Lacerda), logo após cruzar-se o rio. 

Era uma grande e frequentada hospedaria, um edifício em forma de quartel onde o viajante encontrava boas acomodações, camas limpas e comida regular. Seu dono era conhecido pela sua bonomia e gentileza. 

Taunay segue dizendo que o Barão tinha duas filhas, que cuidavam da estalagem: a Nha Cula (Clotilde), “feia e magra” e a Nha Bé (Isabel), “gorduchona, alourada e mais apetitosa”. Taunay segue narrando: "na hospedaria havia um velho piano, muito desafinado. Pois o comandante me fez tocá-lo e assim improvisei alguns trechos de óperas e das primeiras obras de Verdi". 

Logo depois chegou à estalagem a "música de Jundiaí", uma "péssima charanga" onde dominavam o trombone, o prato e o bumbo e armou-se um baile, onde os oficiais "apertaram deveras as duas beldades" - eram as únicas mulheres presentes... O Barão dizia "divirtam-se, mas respeitem as meninas"...

Já estavam no local outros militares, entre os quais "um major velho, de peruca", comandante do 21º Batalhão, que pediu para "recitar um improviso". Foi para o centro da sala, com um lenço na mão e disse ao mestre da charanga: "quando eu der sinal com o lenço, toquem o Hino Nacional" - e recitou:

"Se aqui estamos reunidos,

Em solene ocasião,

É p'ra vingarmos valentes,

Pedro e a Constituição."


Deu sinal com o lenço e a charanga atacou o Hino; ao final dos primeiros compassos, o Major pediu silêncio e recitou mais algumas quadrinhas, todas péssimas. Segundo Taunay, a cena era irresistivelmente cômica. 

O então Tenente Taunay era muito jovem à época. Com seus 22 anos, músico e compositor, deve ter se divertido muito na festa...


Acampamento durante a marcha

A expedição marchou mais de dois mil quilômetros, até chegar a Miranda, no Mato Grosso do Sul, em setembro de 1866. Comandada então pelo coronel Carlos de Morais Camisão, invadiu o território paraguaio, chegando à Fazenda Laguna, que era de propriedade de Solano Lopez, em abril de 1867.

Acossados pelos paraguaios, pelas doenças e pela fome, os brasileiros se retiram 
Reduzida à metade dos 3.000 homens originais, muito distante das linhas brasileiras, sem víveres, remédios, armas e equipamentos adequados e muito afetada por doenças como cólera, tifo, e beribéri, a coluna do foi forçada a retirar-se fustigada pelos constantes ataques da cavalaria paraguaia, que utilizava táticas de guerrilha, infligindo perdas severas aos brasileiros.

Conseguiram chegar às linhas brasileiras em Coxim, em junho de 1868, apenas 700 homens, alquebrados pela doença e pela fome - o Coronel Camisão morreu pelo caminho, vítima do cólera.

Teve um papel muito importante no episódio José Francisco Lopes, o Guia Lopes, um fazendeiro da região que atuou como guia das tropas - sem o seu conhecimento da região, as baixas teriam sido ainda maiores. Também morreu de cólera quase ao final da retirada.

Finda a retirada, a guerra seguiu para Taunay. A foto abaixo mostra-o em companhia de funcionários e oficiais brasileiros, já ao final da guerra: aparecem o Conde D'Eu, com a mão na cintura e à sua esquerda, o futuro Visconde do Rio Branco (pai do Barão) e que chegou a chefiar o gabinete do Imperador (era como um primeiro ministro) entre 1871 e 1875; Taunay está entre eles, na segunda fila.









quarta-feira, 15 de junho de 2016

MOLECAGEM: QUASE TRAGÉDIA

Uma brincadeira de estudantes quase gerou uma tragédia no dia 28 de abril de 1954. 

Um mecânico estacionou um ônibus na Rua Jorge Zolner, próximo à sua residência, no centro da cidade, para ir almoçar.  

Um grupo de estudantes entrou no ônibus e provavelmente soltou o freio de mão: o ônibus começou a se movimentar, desceu a Jorge Zolner e cruzou a Rua Leonardo Cavalcanti, indo em direção à Rangel Pestana. 

No caminho, atropelou e feriu dois menores que estavam na calçada e invadiu a cozinha de uma casa, onde estavam a proprietária, que se feriu levemente, e quatro crianças, que escaparam ilesas.

Uma "quase tragédia" que foi noticiada pelo jornal Folha da Noite - note-se no recorte do jornal que o número da casa atingida é dado como 769, o que pode indicar um erro do jornal ou o fato de ter sido alterada a numeração; na atualidade, esse número está próximo à Rua Eduardo Tomanik, no sentido contrário ao que desceu o ônibus. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

UM CASO DE AMOR EM 1928

A Folha da Manhã de 12 de setembro de 1928 contava a história de um barbeiro, residente em Santos, que morara em nossa cidade onde teve uma namorada. 

O "fígaro" como o jornal se referia ao barbeiro, mudara-se para Santos e um dia voltou a Jundiaí para "matar as saudades" - segundo o jornal, "foi só, mas voltou acompanhado", trazendo a namorada que fugiu de casa.

Apesar de ser uma ocorrência comum, como era praxe na época o assunto foi levado à Polícia, que deteve os dois.

Mas parece que o caso terminou bem, pois voltaram juntos para nossa cidade...

sábado, 28 de maio de 2016

1935: GUIOMAR NOVAES, A MAIOR PIANISTA BRASILEIRA, VISITA JUNDIAÍ

Guiomar em 1939: "a mais famosa pianista do mundo"
Guiomar Novaes (1894-1979) foi, sem dúvida, a maior pianista brasileira. Nascida em São João da Boa Vista era a 17ª de 19 irmãos. 
Desde os seis anos de idade passou ater aulas de piano, mostrando extraordinária habilidade. Foi vizinha de Monteiro Lobato, a quem inspirou para criar a personagem Narizinho, a "menina do nariz arrebitado" do Sítio do Picapau Amarelo.
Mais tarde teve aulas com Luigi Chiaffarelli, um importante professor italiano, considerado o responsável pelo seu desenvolvimento artístico. Chiaffarelli também foi professor de inúmeros pianistas que alcançaram fama no país e no exterior- hoje dá nome a uma rua nos Jardins, em S. Paulo.. 
Em 1902, com oito anos, Guiomar Novaes apresentou-se publicamente pela primeira vez. Em 1909, com o auxílio do Governo do Estado de São Paulo, foi estudar em Paris.
Ao desembarcar na França, Guiomar foi convidada para visitar uma compatriota que desejava ouvi-la: era a Princesa Isabel, também pianista, que vivia exilada próximo a Versalhes.   
Na capital francesa, Guiomar inscreveu-se para prestar provas no Conservatório de Paris; havia 331 candidatos para doze vagas - Guiomar foi a primeira colocada; na comissão julgadora, estavam músicos como Claude Debussy. Graduou-se dois anos depois, também em primeiro lugar.
Fez muito sucesso em todo mundo; sempre ligada à cultura, participou da Semana de Arte Moderna; casou-se com Octavio Pinto, com quem teve dois filhos.  
Tocou para personagens importantes da cena internacional, como o Presidente Roosevelt e a Rainha Elizabeth.
Mas também veio a Jundiai: em 20 de abril
Folha da Manhã, 24/4/1935
de 1935, um sábado de Aleluia, apresentou-se no Politeama, num concerto em benefício da "Casa da Creança". Ao final do concerto, recebeu uma "corbeille" de uma das crianças atendidas pela Casa; na entrada do Politeama foi colocada uma placa de bronze marcando a visita (será que ainda existe?).
O Prefeito Gandra
Guiomar foi saudada pelo prefeito, o Dr. Antenor Soares Gandra, que ofereceu a ela e aos seus familiares um "lunch" em sua residência.
Pernoitou em Jundiaí e no dia seguinte visitou a instituição e outros pontos da cidade. Surpreende o fato de que há mais de 80 anos nossa cidade recebesse uma artista desse porte. 






    domingo, 22 de maio de 2016

    A ESTRADA DE FERRO BRAGANTINA


    Campo Limpo Paulista pertencia a Jundiaí. De Campo Limpo partia a Estrada de Ferro Bragantina (EFB), que chegava até a cidade de Bragança Paulista. 

    Em fins da década de 1860, fazendeiros de Bragança lançaram a ideia de construir uma estrada de ferro que, ligando-se aos trilhos da Santos a Jundiaí, permitisse enviar rapidamente sua safra de café ao porto de Santos, substituindo as tropas de burros que eram utilizadas nesse transporte - eram semanas de viagem de Bragança até o porto de Santos.. 

    Os trabalhos de implantação da ferrovia foram iniciados em fins  de 1878  e se arrastaram por quase 6 anos, incluído aí um tempo de quase dois anos em que as obras ficaram completamente paralisadas, pois a companhia que estava construindo a ferrovia quase faliu. 

    Foram superados obstáculos imensos à época, pois não havia maquinário disponível e tudo tinha de ser feito com pás e picaretas. Finalmente, em 4 de maio de 1884 inaugurou-se o primeiro trecho, de Campo Limpo até Atibaia, e em 15 de Agosto do mesmo ano até Bragança, numa extensão de 52 km. 

    Uma das Kitson originais partindo de Atibaia nos anos 1960
    Inicialmente a ferrovia utilizou 5 locomotivas a vapor Kitson de fabricação inglesa, que   foram batizadas em homenagem a autoridades da época: Conde de Tres Rios, Dr. Luiz Leme, Dr. Lins de Vasconcellos e Barão de Jundiahy; a quinta chamou-se Bragança.  A ferrovia ainda tinha 8 carros de passageiros e 55 vagões de carga de diversos tipos, inclusive para transporte de animais. 

    Mais tarde, a EFB adquiriu duas automotrizes diesel de procedência inglesa, da marca Walker, que entraram em serviço em 01/09/1938. 


    A "Bandeirante" em Piracaia
    Elas passaram a ser denominadas, após a passagem da EFB para o governo estadual, “O Bandeirante” e “IV Centenário”. Essas máquinas faziam o transporte de passageiros na região de Atibaia e Bragança.

    A Bragantina mudou de dono várias vezes - em 1895 Luís de Oliveira Lins de Vasconcelos lidera um grupo que adquire as ações da EFB, tornando-se dono da companhia, que em 1903 foi vendida à São Paulo Railway, que era a dona da linha Santos a Jundiaí.

    Em 1946 a SPR passou para o controle do governo federal, e a Bragantina para o estadual. Apesar de alguns investimentos do governo, a  EFB continuava famosa pelos seus equipamentos obsoletos, velocidade baixa e pouca confiabilidade em termos de horários – após ser estatizada, tornou-se rapidamente um cabide de empregos.

    A situação da empresa começara a agravar-se  com a crise de 1929, que levou à extinção da cultura do café na região, deixando de haver necessidade do trem para seu transporte.
    O último trem saindo de Campo Limpo

    Nos anos 1960, o asfaltamento das rodovias que ligavam as cidades da região, a construção da rodovia Fernão Dias, que corria praticamente paralela aos seus trilhos e o fato de transportar apenas cerca de 70 toneladas de carga ao dia selaram sua sorte: em 21-06-1967, após anos de prejuízos (em 1966 mais de 1,2 milhões de cruzeiros novos), às 16:50, o último trem  partiu de Campo Limpo com destino a Bragança Paulista, tracionado pela locomotiva diesel  nº 8, que pertencera à Cia. Mogiana. 

    Foi nesse dia que se ouviu o último apito e a EFB morreu...

    terça-feira, 17 de maio de 2016

    1951: A POLÍCIA RODOVIÁRIA RECEBIA HARLEYS

    A Polícia Rodoviária, desde 1962 parte da Polícia Militar, foi criada em 1948  com o nome de Grupo Especial de Polícia Rodoviária, com um efetivo de 60 homens, quase todos antigos membros da Força Expedicionária Brasileira que lutara na Itália.

    Apesar de seu primeiro comandante ter sido o 1º Tenente José de Pina Figueiredo, da então Força Pública (hoje Polícia Militar), a PR era subordinada ao Departamento de Estradas de Rodagem (DER).

    Inicialmente atuava na recém inaugurada Via Anchieta (demorou 8 anos para ser construída), à época a mais moderna rodovia de nosso estado; logo a seguir, passou a cuidar também da Via Anhanguera e depois de outras estradas de nosso estado.

    Jundiaí sempre teve uma ligação muito forte com a Polícia Rodoviária – hoje sediamos um de seus batalhões e aqui funcionou uma escola para formação de patrulheiros. Em nossa região, foram filmados nos anos 1960 alguns episódios da série Vigilante Rodoviário.

    Por tudo isso, vale a pena lembrar uma notícia publicada em 29 de junho de 1951 pela Folha da Manhã, dando conta da entrega à PR de 15 motocicletas Harley Davidson, importadas através da Mesbla, revendedora de produtos daquela marca.

    Havia necessidade de mais motos, mas para importa-las era necessário autorização do governo federal, o que era muito difícil, em função da falta de moeda forte para compra-las – já vivíamos em crise...


    O quartel da PR em 1956 - esquina das ruas João Ferrara e Pirapora (Acervo Maurício Ferreira/Sebo Jundiaí)

    quarta-feira, 11 de maio de 2016

    UMA ESCOLA QUE ORGULHAVA JUNDIAÍ




    Houve aqui uma escola que orgulhava os jundiaienses do passado, a “Escola de Aprendizes Mecânicos na Companhia Paulista de Estradas de Ferro de Jundiahy”, mais tarde conhecida como “SENAI da Paulista”. 
    Roberto Mange
    Um dos maiores incentivadores à instalação de escolas como essa foi Roberto Mange, nome pelo qual era conhecido o suíço Robert Auguste Edmond Mange (1885-1955). Mange era formado em engenharia  pela Escola Politécnica de Zurique (1910) e chegou ao Brasil em 1913,  a convite do engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza, diretor da Escola Politécnica de São Paulo, para lecionar Engenharia Mecânica naquela escola.

    Foi superintendente da Escola Profissional de Mecânica do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo,  fundou o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT) e o  SENAI, tendo sido seu primeiro diretor, cargo que exerceu  até falecer.
    Criada em 1934 (apesar de outras fontes afirmarem que já em 1901 havia em nossa cidade uma escola de aprendizes ferroviários), a maioria de seus cursos tinha a duração de quatro anos e eram compostos por disciplinas práticas e teóricas. Inicialmente, a escola ofereceu um curso   de “Escrituração Ferroviária”, com uma etapa de formação com a duração de três anos ao qual se poderia seguir um período de aperfeiçoamento de mais dois e um curso para mecânicos, compreendendo os ofícios de mecânico-ajustador, serralheiro e montador. Posteriormente, incluiu outras especializações como torneiros, caldeireiros, fundidores, modeladores-mecânicos e eletrotécnicos.
    Os requisitos para preencher as vagas eram: ser maior de 14 anos e prestar exame de admissão em Língua Portuguesa, Geografia e História do Brasil, Aritmética e Geometria Prática - passando também por exames psicotécnicos, onde eram avaliadas aptidões naturais para a carreira.
    As oficinas - à direita, ao 
    fundo, o Politeama e a 
    igreja de Vila Arens
    O currículo apresentava principalmente matérias técnicas mas também matérias mais gerais, como por exemplo, “Noções de História da Civilização no Brasil”, Geografia Política e Comercial do Brasil”, “Educação Cívica e Moral do Aprendiz no seu Ofício Perante a Sociedade” e “Noções de Higiene do Ofício”. Era dada maior ênfase aos trabalhos práticos, sendo primordial a relação entre o ensino teórico e as atividades nas oficinas, que deveriam sempre permanecer conjugados; os alunos eram remunerados.
    A Oficina de Aprendizagem em 1941
    Nos dois primeiros anos, os alunos
    frequentavam concomitantemente as aulas teóricas e a Oficina de Aprendizagem e, nos dois últimos anos, frequentavam a Oficina Geral. Suas atividades deveriam obedecer sempre ao princípio dos trabalhos metódicos e progressivos.  Chegamos a conhecer profissionais formados pela escola que ocuparam bons cargos em empresas como a IBM.
    O jornal “Folha da Manhã”, em sua edição de 28 de novembro de 1936, noticiava a solenidade de formatura da primeira turma da escola, paraninfada pelo deputado Antenor Soares Gandra; foi oradora da turma a aluna Noemia de Felippe. Após a entrega dos diplomas, houve um baile, realizado na sede do Grêmio CP. Ainda em termos de formaturas, o jornal “O Estado de S. Paulo” noticiou que em 4 e 5 de janeiro de 1959 mais uma turma se graduara, tendo como orador o aluno Hercules Sagrillo e como paraninfo Armando Negro, instrutor chefe da escola.
    É interessante comparar o que ofereciam essas escolas há oito décadas em relação ao que temos hoje no âmbito municipal e estadual, e até mesmo em algumas escolas privadas, com muitos alunos terminando o Ensino Médio (colegial) analfabetos funcionais.

    quinta-feira, 5 de maio de 2016

    MAIO É MÊS DE ROMARIAS: FÉ, E ÀS VEZES, TRISTEZA

    É muito tradicional em nossa cidade a Romaria Diocesana Masculina, que acontece nos mês de maio, desde 1914, tendo começado com um grupo de 13 amigos que foi até Pirapora  fazer suas orações. Desde então, passou a ser realizada todos os anos e se tornou uma tradição passada de pai para filho. 

    Atualmente, reúne cerca de 1.500 romeiros, que fazem a peregrinação a pé, cavalo, charrete e bicicleta. É a mais antiga do Estado de São Paulo.

    Mas ela também gera tristezas: em 1936, a romaria saiu de Jundiaí em 9 de maio, sábado, e na volta no domingo, um dos romeiros, Marcos Justino de Oliveira caiu do cavalo, vindo a falecer, conforme noticiou a Folha da Manhã. Segundo o mesmo jornal, mais de quatrocentos cavaleiros participaram da romaria.

    Vale a pena lembrar também a Romaria Pedestre de Vila Arens, que teve início em 1935, com 6 participantes e da qual hoje participam cerca de 600 pessoas; ambas as romarias ocorrem no mês de maio.