quarta-feira, 15 de junho de 2016

MOLECAGEM: QUASE TRAGÉDIA

Uma brincadeira de estudantes quase gerou uma tragédia no dia 28 de abril de 1954. 

Um mecânico estacionou um ônibus na Rua Jorge Zolner, próximo à sua residência, no centro da cidade, para ir almoçar.  

Um grupo de estudantes entrou no ônibus e provavelmente soltou o freio de mão: o ônibus começou a se movimentar, desceu a Jorge Zolner e cruzou a Rua Leonardo Cavalcanti, indo em direção à Rangel Pestana. 

No caminho, atropelou e feriu dois menores que estavam na calçada e invadiu a cozinha de uma casa, onde estavam a proprietária, que se feriu levemente, e quatro crianças, que escaparam ilesas.

Uma "quase tragédia" que foi noticiada pelo jornal Folha da Noite - note-se no recorte do jornal que o número da casa atingida é dado como 769, o que pode indicar um erro do jornal ou o fato de ter sido alterada a numeração; na atualidade, esse número está próximo à Rua Eduardo Tomanik, no sentido contrário ao que desceu o ônibus. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

UM CASO DE AMOR EM 1928

A Folha da Manhã de 12 de setembro de 1928 contava a história de um barbeiro, residente em Santos, que morara em nossa cidade onde teve uma namorada. 

O "fígaro" como o jornal se referia ao barbeiro, mudara-se para Santos e um dia voltou a Jundiaí para "matar as saudades" - segundo o jornal, "foi só, mas voltou acompanhado", trazendo a namorada que fugiu de casa.

Apesar de ser uma ocorrência comum, como era praxe na época o assunto foi levado à Polícia, que deteve os dois.

Mas parece que o caso terminou bem, pois voltaram juntos para nossa cidade...

sábado, 28 de maio de 2016

1935: GUIOMAR NOVAES, A MAIOR PIANISTA BRASILEIRA, VISITA JUNDIAÍ

Guiomar em 1939: "a mais famosa pianista do mundo"
Guiomar Novaes (1894-1979) foi, sem dúvida, a maior pianista brasileira. Nascida em São João da Boa Vista era a 17ª de 19 irmãos. 
Desde os seis anos de idade passou ater aulas de piano, mostrando extraordinária habilidade. Foi vizinha de Monteiro Lobato, a quem inspirou para criar a personagem Narizinho, a "menina do nariz arrebitado" do Sítio do Picapau Amarelo.
Mais tarde teve aulas com Luigi Chiaffarelli, um importante professor italiano, considerado o responsável pelo seu desenvolvimento artístico. Chiaffarelli também foi professor de inúmeros pianistas que alcançaram fama no país e no exterior- hoje dá nome a uma rua nos Jardins, em S. Paulo.. 
Em 1902, com oito anos, Guiomar Novaes apresentou-se publicamente pela primeira vez. Em 1909, com o auxílio do Governo do Estado de São Paulo, foi estudar em Paris.
Ao desembarcar na França, Guiomar foi convidada para visitar uma compatriota que desejava ouvi-la: era a Princesa Isabel, também pianista, que vivia exilada próximo a Versalhes.   
Na capital francesa, Guiomar inscreveu-se para prestar provas no Conservatório de Paris; havia 331 candidatos para doze vagas - Guiomar foi a primeira colocada; na comissão julgadora, estavam músicos como Claude Debussy. Graduou-se dois anos depois, também em primeiro lugar.
Fez muito sucesso em todo mundo; sempre ligada à cultura, participou da Semana de Arte Moderna; casou-se com Octavio Pinto, com quem teve dois filhos.  
Tocou para personagens importantes da cena internacional, como o Presidente Roosevelt e a Rainha Elizabeth.
Mas também veio a Jundiai: em 20 de abril
Folha da Manhã, 24/4/1935
de 1935, um sábado de Aleluia, apresentou-se no Politeama, num concerto em benefício da "Casa da Creança". Ao final do concerto, recebeu uma "corbeille" de uma das crianças atendidas pela Casa; na entrada do Politeama foi colocada uma placa de bronze marcando a visita (será que ainda existe?).
O Prefeito Gandra
Guiomar foi saudada pelo prefeito, o Dr. Antenor Soares Gandra, que ofereceu a ela e aos seus familiares um "lunch" em sua residência.
Pernoitou em Jundiaí e no dia seguinte visitou a instituição e outros pontos da cidade. Surpreende o fato de que há mais de 80 anos nossa cidade recebesse uma artista desse porte. 






    domingo, 22 de maio de 2016

    A ESTRADA DE FERRO BRAGANTINA


    Campo Limpo Paulista pertencia a Jundiaí. De Campo Limpo partia a Estrada de Ferro Bragantina (EFB), que chegava até a cidade de Bragança Paulista. 

    Em fins da década de 1860, fazendeiros de Bragança lançaram a ideia de construir uma estrada de ferro que, ligando-se aos trilhos da Santos a Jundiaí, permitisse enviar rapidamente sua safra de café ao porto de Santos, substituindo as tropas de burros que eram utilizadas nesse transporte - eram semanas de viagem de Bragança até o porto de Santos.. 

    Os trabalhos de implantação da ferrovia foram iniciados em fins  de 1878  e se arrastaram por quase 6 anos, incluído aí um tempo de quase dois anos em que as obras ficaram completamente paralisadas, pois a companhia que estava construindo a ferrovia quase faliu. 

    Foram superados obstáculos imensos à época, pois não havia maquinário disponível e tudo tinha de ser feito com pás e picaretas. Finalmente, em 4 de maio de 1884 inaugurou-se o primeiro trecho, de Campo Limpo até Atibaia, e em 15 de Agosto do mesmo ano até Bragança, numa extensão de 52 km. 

    Uma das Kitson originais partindo de Atibaia nos anos 1960
    Inicialmente a ferrovia utilizou 5 locomotivas a vapor Kitson de fabricação inglesa, que   foram batizadas em homenagem a autoridades da época: Conde de Tres Rios, Dr. Luiz Leme, Dr. Lins de Vasconcellos e Barão de Jundiahy; a quinta chamou-se Bragança.  A ferrovia ainda tinha 8 carros de passageiros e 55 vagões de carga de diversos tipos, inclusive para transporte de animais. 

    Mais tarde, a EFB adquiriu duas automotrizes diesel de procedência inglesa, da marca Walker, que entraram em serviço em 01/09/1938. 


    A "Bandeirante" em Piracaia
    Elas passaram a ser denominadas, após a passagem da EFB para o governo estadual, “O Bandeirante” e “IV Centenário”. Essas máquinas faziam o transporte de passageiros na região de Atibaia e Bragança.

    A Bragantina mudou de dono várias vezes - em 1895 Luís de Oliveira Lins de Vasconcelos lidera um grupo que adquire as ações da EFB, tornando-se dono da companhia, que em 1903 foi vendida à São Paulo Railway, que era a dona da linha Santos a Jundiaí.

    Em 1946 a SPR passou para o controle do governo federal, e a Bragantina para o estadual. Apesar de alguns investimentos do governo, a  EFB continuava famosa pelos seus equipamentos obsoletos, velocidade baixa e pouca confiabilidade em termos de horários – após ser estatizada, tornou-se rapidamente um cabide de empregos.

    A situação da empresa começara a agravar-se  com a crise de 1929, que levou à extinção da cultura do café na região, deixando de haver necessidade do trem para seu transporte.
    O último trem saindo de Campo Limpo

    Nos anos 1960, o asfaltamento das rodovias que ligavam as cidades da região, a construção da rodovia Fernão Dias, que corria praticamente paralela aos seus trilhos e o fato de transportar apenas cerca de 70 toneladas de carga ao dia selaram sua sorte: em 21-06-1967, após anos de prejuízos (em 1966 mais de 1,2 milhões de cruzeiros novos), às 16:50, o último trem  partiu de Campo Limpo com destino a Bragança Paulista, tracionado pela locomotiva diesel  nº 8, que pertencera à Cia. Mogiana. 

    Foi nesse dia que se ouviu o último apito e a EFB morreu...

    terça-feira, 17 de maio de 2016

    1951: A POLÍCIA RODOVIÁRIA RECEBIA HARLEYS

    A Polícia Rodoviária, desde 1962 parte da Polícia Militar, foi criada em 1948  com o nome de Grupo Especial de Polícia Rodoviária, com um efetivo de 60 homens, quase todos antigos membros da Força Expedicionária Brasileira que lutara na Itália.

    Apesar de seu primeiro comandante ter sido o 1º Tenente José de Pina Figueiredo, da então Força Pública (hoje Polícia Militar), a PR era subordinada ao Departamento de Estradas de Rodagem (DER).

    Inicialmente atuava na recém inaugurada Via Anchieta (demorou 8 anos para ser construída), à época a mais moderna rodovia de nosso estado; logo a seguir, passou a cuidar também da Via Anhanguera e depois de outras estradas de nosso estado.

    Jundiaí sempre teve uma ligação muito forte com a Polícia Rodoviária – hoje sediamos um de seus batalhões e aqui funcionou uma escola para formação de patrulheiros. Em nossa região, foram filmados nos anos 1960 alguns episódios da série Vigilante Rodoviário.

    Por tudo isso, vale a pena lembrar uma notícia publicada em 29 de junho de 1951 pela Folha da Manhã, dando conta da entrega à PR de 15 motocicletas Harley Davidson, importadas através da Mesbla, revendedora de produtos daquela marca.

    Havia necessidade de mais motos, mas para importa-las era necessário autorização do governo federal, o que era muito difícil, em função da falta de moeda forte para compra-las – já vivíamos em crise...


    O quartel da PR em 1956 - esquina das ruas João Ferrara e Pirapora (Acervo Maurício Ferreira/Sebo Jundiaí)

    quarta-feira, 11 de maio de 2016

    UMA ESCOLA QUE ORGULHAVA JUNDIAÍ




    Houve aqui uma escola que orgulhava os jundiaienses do passado, a “Escola de Aprendizes Mecânicos na Companhia Paulista de Estradas de Ferro de Jundiahy”, mais tarde conhecida como “SENAI da Paulista”. 
    Roberto Mange
    Um dos maiores incentivadores à instalação de escolas como essa foi Roberto Mange, nome pelo qual era conhecido o suíço Robert Auguste Edmond Mange (1885-1955). Mange era formado em engenharia  pela Escola Politécnica de Zurique (1910) e chegou ao Brasil em 1913,  a convite do engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza, diretor da Escola Politécnica de São Paulo, para lecionar Engenharia Mecânica naquela escola.

    Foi superintendente da Escola Profissional de Mecânica do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo,  fundou o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT) e o  SENAI, tendo sido seu primeiro diretor, cargo que exerceu  até falecer.
    Criada em 1934 (apesar de outras fontes afirmarem que já em 1901 havia em nossa cidade uma escola de aprendizes ferroviários), a maioria de seus cursos tinha a duração de quatro anos e eram compostos por disciplinas práticas e teóricas. Inicialmente, a escola ofereceu um curso   de “Escrituração Ferroviária”, com uma etapa de formação com a duração de três anos ao qual se poderia seguir um período de aperfeiçoamento de mais dois e um curso para mecânicos, compreendendo os ofícios de mecânico-ajustador, serralheiro e montador. Posteriormente, incluiu outras especializações como torneiros, caldeireiros, fundidores, modeladores-mecânicos e eletrotécnicos.
    Os requisitos para preencher as vagas eram: ser maior de 14 anos e prestar exame de admissão em Língua Portuguesa, Geografia e História do Brasil, Aritmética e Geometria Prática - passando também por exames psicotécnicos, onde eram avaliadas aptidões naturais para a carreira.
    As oficinas - à direita, ao 
    fundo, o Politeama e a 
    igreja de Vila Arens
    O currículo apresentava principalmente matérias técnicas mas também matérias mais gerais, como por exemplo, “Noções de História da Civilização no Brasil”, Geografia Política e Comercial do Brasil”, “Educação Cívica e Moral do Aprendiz no seu Ofício Perante a Sociedade” e “Noções de Higiene do Ofício”. Era dada maior ênfase aos trabalhos práticos, sendo primordial a relação entre o ensino teórico e as atividades nas oficinas, que deveriam sempre permanecer conjugados; os alunos eram remunerados.
    A Oficina de Aprendizagem em 1941
    Nos dois primeiros anos, os alunos
    frequentavam concomitantemente as aulas teóricas e a Oficina de Aprendizagem e, nos dois últimos anos, frequentavam a Oficina Geral. Suas atividades deveriam obedecer sempre ao princípio dos trabalhos metódicos e progressivos.  Chegamos a conhecer profissionais formados pela escola que ocuparam bons cargos em empresas como a IBM.
    O jornal “Folha da Manhã”, em sua edição de 28 de novembro de 1936, noticiava a solenidade de formatura da primeira turma da escola, paraninfada pelo deputado Antenor Soares Gandra; foi oradora da turma a aluna Noemia de Felippe. Após a entrega dos diplomas, houve um baile, realizado na sede do Grêmio CP. Ainda em termos de formaturas, o jornal “O Estado de S. Paulo” noticiou que em 4 e 5 de janeiro de 1959 mais uma turma se graduara, tendo como orador o aluno Hercules Sagrillo e como paraninfo Armando Negro, instrutor chefe da escola.
    É interessante comparar o que ofereciam essas escolas há oito décadas em relação ao que temos hoje no âmbito municipal e estadual, e até mesmo em algumas escolas privadas, com muitos alunos terminando o Ensino Médio (colegial) analfabetos funcionais.

    quinta-feira, 5 de maio de 2016

    MAIO É MÊS DE ROMARIAS: FÉ, E ÀS VEZES, TRISTEZA

    É muito tradicional em nossa cidade a Romaria Diocesana Masculina, que acontece nos mês de maio, desde 1914, tendo começado com um grupo de 13 amigos que foi até Pirapora  fazer suas orações. Desde então, passou a ser realizada todos os anos e se tornou uma tradição passada de pai para filho. 

    Atualmente, reúne cerca de 1.500 romeiros, que fazem a peregrinação a pé, cavalo, charrete e bicicleta. É a mais antiga do Estado de São Paulo.

    Mas ela também gera tristezas: em 1936, a romaria saiu de Jundiaí em 9 de maio, sábado, e na volta no domingo, um dos romeiros, Marcos Justino de Oliveira caiu do cavalo, vindo a falecer, conforme noticiou a Folha da Manhã. Segundo o mesmo jornal, mais de quatrocentos cavaleiros participaram da romaria.

    Vale a pena lembrar também a Romaria Pedestre de Vila Arens, que teve início em 1935, com 6 participantes e da qual hoje participam cerca de 600 pessoas; ambas as romarias ocorrem no mês de maio.    

    sexta-feira, 29 de abril de 2016

    LEONARDO CAVALCANTI: UMA HISTÓRIA TRÁGICA

    O Mackenzie College (esquina das ruas Maria Antonia e Itambé)
    Leonardo de Albuquerque Cavalcanti era o segundo filho do médico Francisco de Albuquerque Cavalcanti, o Dr. Cavalcanti que foi prefeito de nossa cidade e de Alice Ulhoa Cintra. 

    Nascido em São Paulo em 1º de julho de 1892, estudou no Colégio São Luis e depois graduou-se em engenharia pelo então Mackenzie College (hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie), ambos em São Paulo.

    A seguir mudou-se para os Estados Unidos, para fazer um curso de pós-graduação de três anos na Escola de Engenharia Elétrica da Universidade de Princeton, onde em 1916 ganhou a medalha Charles Ira Young, concedida a pesquisadores que se destacam na área de Engenharia Elétrica. Neste mesmo ano tornou-se um associado ao IEEE, o Institute of Electrical and Electronics Engineers, uma das mais importantes associações profissionais de todo o mundo.

    Documento da polícia acerca do acidente 
    Nos Estados Unidos trabalhou para a Western Electric e para a Westinghouse; ao retornar ao Brasil, trabalhou na Cia. Campineira de Luz e Força e, em 1920, convidado pelo engenheiro Francisco Paes Leme de Monlevade, então superintendente da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, foi trabalhar na ferrovia, que iniciava a eletrificação de mais um trecho.

    Faleceu aos 32 anos, na noite de 29 de abril de 1925, ao tocar inadvertidamente em um cabo de alta tensão enquanto trabalhava no pátio de manobras da empresa em Campinas - sua morte foi instantânea. 
    Obituário publicado pelo Journal do IEEE
    Quem entra no cemitério Nossa Senhora do Desterro pela alameda central, vê logo à sua direita um jazigo com uma escultura de uma jovem debruçada sobre um caixão - é a sepultura de Leonardo. 

    Conta-se que durante o enterro, Yole Motta, que seria sua namorada, teria se lançado sobre o caixão e prometido amor eterno - Yole veio a falecer 45 anos depois, solteira, conforme sua promessa. 

    O túmulo

    domingo, 24 de abril de 2016

    ADHEMAR DE BARROS VISITA JUNDIAÍ: BAJULAÇÃO, DISCURSOS E INAUGURAÇÕES

    Adhemar
    Durante a ditadura Vargas, os governadores dos estados eram indicados pelo governo central, sendo chamados “interventores”.


    Marcondes
    Em 25 de maio de 1941, o então interventor Adhemar de Barros (que teria sido o primeiro a ser chamado ‘rouba, mas faz’), visitou nossa cidade. Aqui chegou de trem vindo de Campinas, que visitara antes. Segundo o Correio Paulistano, o interventor foi recebido na estação pelo prefeito Manuel Anibal Marcondes, que seria assassinado algum tempo depois.   


    No desfile
    De carro, seguiram para a Praça Rui Barbosa, onde houve um desfile, do qual participaram alunos de diversas escolas (Conde do Parnaíba, Francisco Telles, Siqueira de Moraes, Ginásio Rosa etc). 

    Segundo o jornal, estavam presentes também cerca de vinte mil trabalhadores das indústrias têxteis, cerâmicas, químicas etc. - não se deve esquecer que os jornais eram controlados pela ditadura Vargas, portanto esse número talvez não seja confiável, tendo em vista o tamanho da cidade à época. 
    O almôço no Grêmio
    Por volta das 14 horas, o grupo dirigiu-se ao Grêmio CP para o almoço, onde à sobremesa ouviu discurso do Prefeito, ao qual Adhemar respondeu com outro discurso, ambos longuíssimos e que são transcritos na íntegra pelo Correio. E como se gostava de discursos: ao chegar ao Grêmio, Adhemar já fora saudado por uma criança e depois de seu discurso, Eloy Chaves, “num rápido improviso”, ergueu um brinde ao governador...
    Deixando o Grêmio, a comitiva dirigiu-se ao local onde seria lançada a pedra fundamental do edifício da Caixa Econômica Estadual - seria na Rua Barão de Jundiaí? Ali, mais um discurso, desta vez de Olavo de Queiroz Guimarães.
    A seguir, por volta das 16 horas o grupo foi à Prefeitura, que na época situava-se na Rua Barão: ali seria colocado um retrato de Adhemar, descrito como “um dos vultos que mais haviam trabalhado pela pátria e mereceram as homenagens do município de Jundiahy”. E mais um longo discurso, desta vez de Waldomiro Lobo da Costa.

    E mais: lançamento da pedra fundamental do Parque Infantil, onde hoje se localiza o Terminal Central, inauguração do reservatório “Adhemar de Barros”, do “Serviço de Abastecimento de Água de Jundiahy” (seria onde hoje se localiza o Velório Municipal?), visita ao Hospital São Vicente - e mais discursos: no primeiro desses eventos, falou Tibúrcio Estevam de Siqueira.
    A fonte luminosa

    Pelas 19 horas, a comitiva chegou à Praça Pedro de Toledo, em frente à Catedral, para inauguração da Fonte Luminosa: mais um discurso, desta vez de Alceu de Toledo Pontes. Adhemar descerrou a placa comemorativa, com a fonte entrando em funcionamento.

    A seguir, outro discurso: João Baptista Figueiredo, “falando em nome do povo”... Logo depois, o Tenis Clube Paulista ofereceu um lanche a Adhemar, que se despediu e foi para a estação ferroviária, de onde seu trem partiu às 20:15, chegando a São Paulo às 21:20 – muito mais rapidamente que os trens atuais, 75 anos depois. 

    Os atuais, observe-se,  são ainda mais lentos que os de 1867, como mostra o primeiro horário da EF Santos a Jundiaí:



    domingo, 17 de abril de 2016

    CRUELDADE E BUROCRACIA

    A praça na atualidade
    Na cidade de Campinas, no dia 9 de novembro de 1835, no largo de Santa Cruz (hoje Praça XV de Novembro), foi enforcado e esquartejado o escravo Elesbão. Elesbão foi condenado por ter assassinado, no dia 20 de maio de 1831, o seu senhor, o capitão Luiz José de Oliveira, tendo a seguir bebido seu sangue. No processo, foram interrogados 18 escravos e 35 outras testemunhas. 

    Segundo o processo, Elesbão era "um africano, pertencente à nação cabinda, de estatura ordinária, rosto comprido, testa pequena, cabelos encarapinhados, nariz chato, boca resgada, beiços grossos, pouca barba, e parecendo ter vinte anos, solteiro".

    O crime teria sido cometido por Elesbão e por outro escravo, Narciso, que pertenciam ao Capitão e haviam fugido, voltando para mata-lo. Narciso foi preso e executado no dia 24 de maio de 1833, em São Paulo. Elesbão estava foragido, mas em 1835 foi capturado por capitães do mato; sempre se declarou inocente, dizendo serem os criminosos Narciso e Luiz Congo, escravos que queriam fugir do castigo acusando-o.

    O crime teria sido cometido com o uso de faca (Elesbão) e foice (Narciso), e o motivo teria sido o excesso de trabalho dado aos escravos; o capitão teria também abusado de uma namorada do escravo. O Capitão era dono do Engenho Romão, situado entre Jundiaí e Itu, e os assassinos viviam em um quilombo situado na região de Itatiba, onde viviam
    sete escravos fugidos desse engenho, inclusive Luiz Congo. 

    A execução era um espetáculo público – muitos donos de escravos enviavam os seus para o assistirem, como forma de “educação”. Conta-se que um cortejo saiu da cadeia, formado pelas autoridades, réu, vigário e pelo carrasco; a seguir, a infantaria da Guarda Nacional e fechando o préstito a cavalaria da mesma Guarda. 

    Dirigiram-se todos à Matriz, onde foi realizada missa da qual o condenado tomou parte. Em seguida, o grupo desfilou pelas ruas mais importantes da cidade, seguindo para o local do suplício, onde a sentença foi cumprida por volta do meio dia, tendo Elesbão, mais uma vez, afirmado ser inocente. 

    À sentença de condenação à morte, foi acrescentada pelo juiz José Mendes Ferraz a determinação que se segue: “declaro que depois do réu sofrer a pena de morte cortar-se-ão as mãos e a cabeça; esta será remetida para a Vila de Jundiaí, e ali colocada num poste em lugar público e aquelas serão colocadas nesta Vila em um poste também em lugar público”. 

    A burocracia já imperava: o referido juiz mandou entregar a cabeça ao juiz de nossa cidade, acompanhada de uma carta que dizia: “o portador desta entregará a Vª. Sª. a cabeça do justiçado Elisbão, para Vª. Sª. mandar coloca-la em um poste, em lugar público, conforme determina a sentença aplicada ao mesmo. Vª. Sª. me remeterá o recibo para constar” – o juiz de Campinas pedia o recibo da cabeça!!!  A burocracia realmente já imperava.

    E mais um detalhe macabro: a carta de remessa da cabeça estava datada de 10 de dezembro, um mês após a execução! A cabeça foi colocada em uma caixa e envolvida em sal, e foi trazida a Jundiaí por dois portadores, que receberam pelo trabalho 4 mil e quatrocentos réis - a forca havia custado 33 mil réis e o facão usado para cortar a cabeça e as mãos custou um mil e seiscentos réis. Segundo recomendação da Câmara Municipal de Campinas, a forca deveria ser construída "com alguma segurança e firmeza, para servir em outras ocasiões semelhantes."

    Infelizmente crueldades seguem ocorrendo e a burocracia dominando...

    domingo, 10 de abril de 2016

    LITORINA: LIGANDO SÃO PAULO A CAMPINAS COM CONFORTO E SEGURANÇA

    A litorina em uma estação entre Jundiaí e S. Paulo
    Muitos jundiaienses, que estudaram ou trabalharam em São Paulo e Campinas, ainda se lembram das “litorinas”, trens que ligavam aquelas cidades, com parada em Jundiaí.
    Esses trens, de propriedade da EF Santos a Jundiaí eram operados conjuntamente por esta e pela Cia. Paulista, e pretendiam competir diretamente com os serviços de ônibus recém-surgidos que usavam a Via Anhanguera, então recentemente inaugurada.
    Tecnicamente chamados TUE (Trens Unidades Elétricos),
    Saindo da Estação da Luz (ao fundo, a Estação Júlio Prestes)
    eram pintados de marrom, com faixas amarelas. As litorinas eram formadas por um carro-motor (central) e dois carros-reboque; seu peso vazio era de 111,25 toneladas, com potência de 800 HP e podendo acomodar até 198 passageiros sentados em bancos de couro verde e palhinha, a uma velocidade máxima segura de 110 km/h.
    Elas foram entregues à E.F. Santos a Jundiaí entre julho e setembro de 1952, permanecendo em serviço por cerca de 30 anos. Foram construídos pela English Electric, tradicional fornecedora de locomotivas para a EFSJ.
    As litorinas tinham o apelida de “Gualicho”, um famoso cavalo de corridas da época e que foi o único cavalo da história a vencer os GPs São Paulo e Brasil por dois anos consecutivos, em 1952 e 1953, pilotado por Olavo Rosa. Gualicho quebrou  o recorde dos 3.000 metros nos dois hipódromos, sendo que no prado paulista a marca ainda vigorava em 2015. 
    A título de curiosidade, cabe dizer que Gualicho nasceu na Argentina...
    O triste fim: sucata em Paranapiacaba

    terça-feira, 5 de abril de 2016

    DIOGENES DUARTE PAES - UM GRANDE ARTISTA DE NOSSA TERRA

    Folia do Divino
    O jundiaiense Diógenes Duarte Paes nos anos 1950 era considerado o maior aquarelista do Brasil. 
    O artista,  nascido em 29 de janeiro de 1896, desde cedo mostrou ter vocação para a pintura, herdada de seu avô  João Batista de Faria Paes. Permaneceu em Jundiaí até o início dos anos 20, quando se mudou para São Paulo, onde  estudou desenho e pintura com o inglês John Appleby e com Antonio Rocco.
    Escola da Nhazinha Gata
    Além de aquarelas com cenas de Jundiaí e outras cidades, Paes produziu óleos sobre tela. Sua primeira exposição importante, com 50 trabalhos em aquarela, aconteceu em São Paulo, na Galeria Itá, em 1946. Em 1948 expôs na livraria do Mappin, então a loja mais sofisticada de São Paulo. 


    Pharmacia da Boa Prosa
    Em 1951 apresentou no Museu de Arte de São Paulo a “Exposição de Desenhos Folclóricos”, que constava de 30 obras entre elas “Folia do Divino”, “O pito de barro”, “Recomenda das almas”, “Domingo de Ramos”, “Antegozando os fogos” e “Depois da procissão”.
    Depois da procissão - anjo rico e anjo pobre
    Suas obras mais interessantes mostram cenas de nossa cidade; dentre elas, uma sala de aula da escola da professora “Nhazinha Gata”, que funcionava na Rua Baroneza do Japy e uma cena típica das cidades do interior: em “Pharmacia da Boa Prosa”,   grandes nomes da sociedade jundiaiense da época conversavam, dentre eles  o   farmacêutico Zacharias de Góes, Carlos Salles Block, o dentista Conrado Augusto Offa, o prefeito Valdomiro Lobo da Costa e o padre Lúcio Xavier de Castro.
    Rua do Rosário - ao fundo a igreja  Nossa Senhora
     do Rosário dos Pretos, demolida em 1922
    para a abertura da Rua Maj. Sucupira
    Profundamente inserido na vida de nossa cidade, Paes fez parte da Banda Aurifulgente, grupo carnavalesco de nossa cidade fundado em 1915. Na época, para pertencer à Banda, havia um requisito: não se podia saber tocar qualquer instrumento... O jornal “Folha da Manhã”, de 1º de março de 1935 dizia que Paes foi o primeiro regente da Banda!
    A Igreja Matriz
    Paes também criou a bandeira de nossa cidade, que aparece no alto deste blog - venceu concurso estabelecido para sua criação e escreveu para diversas publicações de nossa cidade e da capital. Muito culto, falava inglês, francês e espanhol.
    O artista faleceu em 1964 e dá nome à pinacoteca de nossa cidade, instalada no prédio do antigo Grupo Escolar Coronel Siqueira de Moraes e a uma escola situada no Bairro do Retiro.


     Praia das Astúrias, Guaruja  
     A Ponte Torta